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ROCK, PUNK E METAL E A SUBVERSÃO DE GÊNERO

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  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

 Por: Arthur Silva e Maria Luiza dos R.G.C. Bitencourt

 

O Punk Rock e o Metal emergiram em contextos históricos, políticos e sociais distintos, mas que compartilhavam uma atmosfera de descontentamento e transformação. Na década de 1970, o mundo vivia um período de grande agitação. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, a crise econômica e o desemprego crescente geraram um sentimento de insatisfação entre os jovens. O Punk Rock surgiu em meados dos anos 70 como uma reação a essa realidade. Inspirado pelo lema "faça você mesmo", o movimento punk rejeitava o rock progressivo e suas complexidades, buscando uma música mais crua e direta, como uma forma de protesto contra o status quo.

Simultaneamente, o Metal ganhava força, principalmente a partir do final dos anos 60 e início dos anos 70, destacando-se como um gênero que explorava temas intensos e sombrios. Bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin eram pioneiras em capturar a agressividade e o poder sonoro, refletindo uma sociedade em transformação, marcada por incertezas e pela busca por novas identidades. Esses gêneros musicais, conforme detalhado no influente livro "Rock & Roll, A Social History", não apenas refletem seu tempo, mas também moldaram a cultura musical subsequente, evidenciando a profunda ligação entre a música e as mudanças sociais.

Mesmo sendo gêneros musicais que surgiram em contextos diferentes, o punk rock e metal compartilham intersecções ainda mais relevantes no Brasil. Ambos os estilos ganharam força no país durante as décadas de 1980 e 1990, como forma de expressão da juventude em um cenário pós-ditadura. O punk rock, com suas letras politizadas e atitude de "faça você mesmo", encontrou  espaço fértil em cidades como São Paulo, onde bandas como Ratos de Porão começaram a misturar influências do metal, criando o subgênero conhecido como crossover thrash. 

Por outro lado, o metal brasileiro, representado por grupos como Sepultura, também incorporou elementos do punk, especialmente  na agressividade e crítica social. Essa fusão não apenas enriqueceu a cena musical, mas também fomentou uma comunidade unida, de fãs que transitavam entre os dois mundos. A interseção entre punk e metal no Brasil reflete uma troca cultural intensa e um desejo comum de contestação e mudança.

O rock, punk e metal se relaciona com o internacional de muitas formas, à medida que esses gêneros foram essenciais para a difusão de movimentos importantes. O rock, em especial o rock psicodélico, foi essencial para que o movimento hippie pudesse expressar seus ideais de paz e harmonia com a natureza, ponto que foi importante para conscientização da sociedade para com temas do debate ambiental que até então eram restritos à área acadêmica. 

O ativismo político do metal também é evidente desde sua origem, com o surgimento explosivo do Black  Sabbath na década de 70, o gênero já se inicia com o ativismo político enraizado como um dos seus principais temas, como é possível se observar em  War  Pigs, presente no segundo álbum do Black Sabbath. Com o punk não poderia ser diferente, nascido como forma de protesto contra o status quo, o punk contribuiu diversos movimentos de resistência contra ditaduras militares ao redor do mundo, inclusive no Brasil. 

Entretanto, um ponto de extrema importância que podemos associar a esses   três gêneros musicais é a performatividade. Em  seu livro “Problemas de gênero” , Judith Butler vai argumentar que o gênero é uma construção social que se perpetua quando se entende o que é uma identidade masculina e feminina e se performa essas “características”. A ideia do que é feminino e masculino passa a ser uma construção, que pode ser alterada a partir do entendimento da sociedade sobre o que esses papéis representam.

Transportando essa ideia para os gêneros musicais em questão, esses movimentos estão intimamente ligados à  forma como são performados e a estética que foi construída em torno deles. Em um meio dominado pela presença masculina, maquiagens pesadas, cabelos volumosos, roupas justas e outros elementos normalmente  entendidos como “femininos” passam a ser vistos como prova de masculinidade. 

Nesse sentido, é difícil não falar sobre a influência de Vivienne Westwood para a criação da estética punk. A inglesa é considerada uma das principais responsáveis pela criação da estética punk no cenário londrino.  Misturando elementos super eróticos do universo sadomasoquista com elementos que já eram usados no rock (spikes, jaquetas de couro e outros) a estilista subvertia os valores   tradicionais para criar uma imagem rebelde para transcrever o sentimento dos jovens da época.  A figura do Ozzy Osbourne também é essencial para a construção dessa estética, com sua silhueta magra, cabelos longos e a utilização de maquiagem forte, o cantor se inspirou na estética gótica e trouxe para o metal influências de estilo que podem ser vistas até os dias atuais entre a comunidade.

Por fim, o surgimento do glam rock também na década de 70 é o ápice da subversão de performance de gênero dentre as variações do rock. A teatralidade e extravagância embutidas nesse estilo são propositais e inegáveis, sendo a essência desse subgênero do rock que é lembrado principalmente pelos visuais e performances marcantes e figuras que muitas vezes são associadas a figuras andróginas, como o David Bowie, Marc Bolan (T.Rex) e, Alice Cooper.

O punk rock, o metal e o rock, em suas diferentes vertentes, consolidam-se como mais do que gêneros musicais, atuando como espaços centrais de construção de identidade e de leitura da esfera social. Surgidos em contextos marcados por crises econômicas, repressões políticas e transformações culturais, esses movimentos ofereceram à juventude formas de expressar insatisfação, pertencimento e resistência. A música, aliada à estética e à atitude, tornou-se uma linguagem capaz de comunicar posicionamentos políticos, geracionais e de classe, especialmente no Brasil, onde punk e metal se fortaleceram como instrumentos de contestação no período pós-ditadura e de formação de comunidades culturais alternativas. 

Nesse processo, a performatividade assume papel fundamental, sobretudo na ressignificação das normas de gênero. A identidade andrógina, visível no glam rock e em figuras como David Bowie, insere-se em um campo mais amplo de identidades possíveis, que inclui identidades dissidentes, coletivas e culturais. Maquiagem, vestimentas e performances tradicionalmente associadas ao feminino passam a operar como símbolos de transgressão e força em ambientes majoritariamente masculinos, revelando que gênero, assim como identidade, é uma construção social passível de transformação. Dessa forma, punk, metal e rock contribuem para ampliar os limites do aceitável, permitindo novas formas de expressão individual e reafirmando a música como um potente instrumento de crítica e mudança social.













Referências

BBC News. Elas são punk: um olhar feminino sobre o movimento que completa 40 anos. Revista Marie Claire, 2016. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Noticias/noticia/2016/11/elas-sao-punk-um-olhar-feminino-sobre-o-movimento-que-completa-40-anos.html. Acesso em: [28 de nov. 2025].


Como o glam rock mudou o mundo. uDiscoverMusic, [s.d.]. Disponível em: https://www.udiscovermusic.com/in-depth-features/how-glam-rock-changed-world/. Acesso em: [29 de nov. 2025].


O rock se veste de luto: a moda ao longo da história do rock e o legado estético de Ozzy Osbourne. Harper's Bazaar Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://harpersbazaar.uol.com.br/cultura/o-rock-se-veste-de-luto-a-moda-ao-longo-da-historia-do-rock-e-o-legado-estetico-de-ozzy-osbourne/. Acesso em: [29 de nov. 2025].


RICARDO, Souza. O movimento punk no Brasil: Grito nas ruas. São Paulo UICLAP 2024


ROCHA, L. B.; SANTOS, S. R. Fazendo gênero no heavy metal: uma análise das relações de gênero na cena metal brasileira. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 11., 2017, Florianópolis. Anais [...]. Florianópolis: [s.n.], 2017. Disponível em: https://www.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1517835509_ARQUIVO_ModelooficialFazendooGenero2017.pdf. Acesso em: [28 de nov. 2025].


'É um dos sons mais livres que existe', diz mulher que toca bateria em banda de metal. BBC News Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cn4142gj70vo. Acesso em: [28 de nov. 2025].


 
 
 

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