Os Direitos das Mulheres diante da crise multifacetada do Sahel
- nuriascom
- há 7 dias
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Maria Vyctoria Dias Marques
Thaina Ellen Das Neves Alves
A região do Sahel, faixa de transição entre o deserto do Saara e a África subsaariana, vive atualmente uma intensificação de crises interligadas — segurança, política, humanitária e climática — que a colocam entre os cenários mais instáveis do sistema internacional. Na região do Sahel, especialmente em países como Burkina Faso, Mali e Níger, observa-se golpes de Estado recentes, gerando enfraquecimento da presença estatal apoiado pelo avanço de grupos jihadistas afiliados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda (International Crisis Group, 2024). Nesse contexto, a violência armada e o colapso institucional agravam deslocamentos forçados e insegurança alimentar, afetando mais de 30 milhões de pessoas na região (ONU, 2023). As mulheres, inseridas em estruturas sociais marcadas por desigualdade de gênero, tornam-se ainda mais vulneráveis, sendo desproporcionalmente impactadas pela fome, pela falta de acesso a serviços básicos e pela violência sistemática. Assim, o Sahel não é apenas um espaço de conflito armado, mas um epicentro de múltiplas crises que se retroalimentam (ACNUR, 2023).
Nesse cenário, a situação das mulheres revela os limites concretos da proteção internacional em contextos de conflito. Apesar das normas do Direito Internacional Humanitário, a prática demonstra falhas significativas na sua aplicação, permitindo que mulheres e meninas sejam alvos diretos de violência sexual, sequestro e escravidão forçada como estratégias de guerra (CICV, 2022). Em áreas sob controle de grupos extremistas, há restrições severas à presença feminina na vida pública, incluindo a proibição de frequentar escolas e a imposição de códigos rígidos de vestimenta (ONU Mulheres, 2023). Mais de um milhão de meninas estão fora da escola na região, enquanto práticas como casamento infantil e mutilação genital feminina permanecem elevadas, especialmente no Mali e no Chade (UNICEF, 2023). Além disso, a crise climática intensifica disputas por terra e água, ampliando deslocamentos e expondo ainda mais mulheres a riscos de exploração e violência. Como destaca Sima Bahous (2023), há uma erosão contínua dos direitos básicos femininos, evidenciando que, no Sahel, gênero e conflito estão profundamente interligados.
As guerras não se limitam apenas aos campos de batalha, elas invadem moradias, atingindo a população civil, destruindo bens materiais e comprometendo a perspectiva de futuro. Além disso, os conflitos ficam fora de controle, podendo violar normas, por exemplo, atacar civis, negar ajuda humanitária, desrespeitar os direitos humanos. Nas últimas décadas os conflitos no Sahel aumentaram drasticamente, segundo o chefe da United Nations Office for West Africa and the Sahel (UNOWAS) o número de vítimas de ataques terroristas em Burkina Faso, Níger e Mali quintuplicaram em 2019 quando comparado a 2016, aumentando de 700 para 4000 mortes (ONU, 2020). Paralelamente, os riscos para mulheres e meninas em toda a região são gravíssimos e sistemáticos, à medida que suas vidas estão sob ameaça de grupos extremistas que utilizam o conflito como dominação territorial. Esses grupos impõem sua influência por meio de ameaças, sequestros e uso de drones, além de dificultarem o acesso à educação e bloquearem a ajuda humanitária destinada à população civil, o que agrava a fome e intensifica os saques. Historicamente, as mulheres nos países do Sahel possuem baixa participação e pouca influência no mercado de trabalho, além de enfrentarem escassez em oportunidades de inserção em cargos governamentais. Essa realidade está diretamente ligada a barreiras culturais e sociais, muitas mulheres são forçadas a casamentos precoces impostos por sua família ou pela sociedade, consequentemente, deixando de frequentar a escola (Brown, 2014).
O quadro de instabilidade estrutural na região é marcado pela herança colonial e pela destacada presença das potências europeias no território do Sahel, sem considerar as dinâmicas étnicas, sociais e econômicas locais, o que resultou, no período pós-independência, em Estados politicamente instáveis e com baixa legitimidade interna (SANTOS, 2018). Atualmente, o avanço do extremismo no Sahel não pode ser compreendido apenas como uma falta de segurança, mas como resultado de falhas estruturais. À medida que a violência aumenta em tamanho e recursos, alguns grupos extremistas começam a se organizar de forma semelhante às estruturas de governos locais, com o objetivo de disseminar sua influência através da oposição ao governo, afirmando que está gerando instabilidade, corrupção e desordem, e dessa forma, prometendo serviços essenciais como segurança, fontes de renda e resolução de conflitos.
Ao passo que o crescimento de grupos extremistas se intensifica, também aumenta o número de pessoas necessitando de assistência humanitária, cenário influenciado por uma série de fatores: mudanças climáticas, conflitos étnicos, instabilidade governamental e ineficiência das respostas internacionais, levando ao deslocamento forçado de milhões de pessoas. O principal fator que agrava a situação é o ambiente de segurança altamente fragmentado, reduzindo o apoio humanitário, além do enfrentamento em coordenar parcerias com atores regionais e internacionais. De acordo com o Center for Strategic and International Studies (CSIS) os atores humanitários lidam com diversos desafios para fornecer ajuda, entre eles, o desafio de financiamento: Em 2019, somente 59% das necessidades de financiamento para ajuda humanitária na região foram atendidas, percentual que diminuiu em 18% até maio de 2020 (Murphy, 2020). Além disso, a proliferação de atores não estatais e armados agrava o acesso a regiões do conflito, dificultando a entrada de organizações humanitárias, limitando a implementação de políticas. Tal realidade é evidenciada pelo chamado “risco reputacional”, a atuação de diferentes militares atuando em escoltas compromete a percepção de neutralidade, dificultando a construção da confiança, restringindo a capacidade de buscar ajuda por medo ou desconfiança e inviabilizando implementação de programas voltados à proteção feminina. Dessa forma, mesmo existindo normas e restrições severas sua implementação é enfraquecida por falhas internacionais, mantendo as mulheres em constante empenho em busca do protagonismo (Murphy, 2020).
O caso do Sahel demonstra de forma evidente que os direitos das mulheres são sistematicamente violados em contextos de conflito, nos quais a violência direta — como abusos, sequestros e exclusão de serviços básicos — se articula a falhas estruturais históricas, como desigualdade de gênero, fragilidade institucional e limitações das respostas internacionais. Nesse cenário, os conflitos não apenas ampliam vulnerabilidades preexistentes, mas também reforçam mecanismos de exclusão que dificultam a proteção e a garantia de direitos.
Além disso, o estudo demonstra que a atuação internacional, embora relevante, apresenta limitações significativas, especialmente diante da complexidade do contexto local e da presença de atores armados não estatais, o que compromete a efetividade das políticas de proteção. Dessa forma, o caso do Sahel revela que respostas centradas exclusivamente na segurança são insuficientes para enfrentar a multidimensionalidade da crise.
Por fim, destaca-se que a inclusão das mulheres nos processos de construção da paz, na formulação de políticas e nas estratégias humanitárias é um elemento central para a superação dessas dinâmicas. No contexto analisado, a promoção do protagonismo feminino não apenas contribui para a redução das desigualdades, mas também se configura como um fator estratégico para a construção de soluções mais eficazes e sustentáveis.
Referências:
ANISTIA INTERNACIONAL. O casamento forçado e precoce em Burkina Faso coloca milhares de meninas em risco. Anistia Internacional Brasil, 26 abr. 2016. Disponível em: https://anistia.org.br/informe/o-casamento-forcado-e-precoce-em-burkina-faso-coloca-milhares-de-meninas-em-risco/
Acesso em: 30 mar.2026
BROWN, Anna. The History of women's rights in the Sahel Region. Farm Sahel, 14 mar. 2021. Disponível em: https://www.farmsahel.org/post/the-history-of-women-s-rights-in-the-sahel-region
Acesso em: 30 mar. 2026
COMITÊ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA. Pessoas protegidas: mulheres. Disponível em:
https://www.icrc.org/pt/direito-e-politicas/pessoas-protegidas-mulheres. Acesso em 25 mar. 2026.
CENTRO DE AÇÃO PREVENTIVA. Extremismo violento no Sahel. Monitoramento de conflitos globais, 18 fev. 2026. Disponível em:
Acesso em: 31 mar. 2026
GLOBAL CENTRE FOR THE RESPONSIBILITY TO PROTECT. Central Sahel (Burkina Faso, Mali and Níger). Global, 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.globalr2p.org/countries/mali/
Acesso em: 31 mar. 2026
MURPHY, Kile. Security Fragmentation Hinders Humanitarian Response in the Sahel. CSIS, 17 nov. 2020. Disponível em:
Acesso em: 30 mar. 2026
SANTOS, F.A. O Sahel e a fragilidade dos Estados africanos. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 62, n. 2, p. 45-63, 2018. Disponível em:
Acesso em: 6 abr. 2026
POR DENTRO ÁFRICA. Direitos sob ataque: a luta das mulheres no Sahel africano. Por Dentro da África. 12 ago. 2025. Disponível em: https://pordentrodaafrica.com/noticias/direitos-sob-ataque-a-luta-das-mulheres-no-sahel-africano .Acesso em: 25 mar. 2026
UN WOMEN. Let us stand with the women of the Sahel in recognition of their power to shape a better future. UN Women, 7 ago. 2025. Disponível em:
Acesso em: 30 mar. 2026
UNITED NATIONS. Conflict-related sexual violence. ONU, 2025. Disponível em:
Acesso em: 30 mar. 2026
UNITED NATIONS. Unprecedented terrorist violence’ in West Africa, Sahel region. ONU, 8 jan. 2020. Disponível em:
Acesso em: 30 mar. 2026
UNITED NATIONS. Apagamento ou empoderamento? No Sahel da África, as mulheres enfrentam uma escolha gritante. ONU, 7 ago. 2025. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2025/08/1165596
Acesso em: 30 mar. 2026



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