A INVASÃO À VENEZUELA E A AMÉRICA LATINA COMO "ESPAÇO VITAL" DOS ESTADOS UNIDOS

Michelly Alcantâra | CPOI
Estudos de Caso
INTRODUÇÃO
Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados pelas forças do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), sendo em seguida levados algemados para território estadunidense (BRAUN, 2026; INTERCEPT BRASIL, 2026). Esse episódio revelou o caráter explorador da política externa dos EUA em relação à América Latina, que o jornal Le Monde Diplomatique Brasil (2026) descreveu como “barbárie que fere todas as normas do direito e da diplomacia internacional”. No entanto, a justificativa oficial apresentada por Donald Trump, presidente estadunidense, à comunidade internacional, foi a de restauração da ordem democrática em um país que, para o seu governo, estava sob o comando de um “cartel narcoterrorista” (BRAUN, 2026).
A tese central deste artigo parte da premissa de que a América Latina é operada pelos Estados Unidos como “espaço vital”. Analisa-se pela ótica contemporânea, que o espaço vital é como uma área estratégica utilizada para ampliar o poder econômico e político de um Estado, a qual essa persuasão sobre outros países é legitimada pela ideia de segurança e interesses geopolíticos, além de controlar os recursos naturais, rotas comerciais e alinhamento ideológico (HAGE et al., 2025), perspectiva herdada de “Lebensraum” do autor Friedrich Ratzel em sua obra “Geografia Política” de 1897, doutrina que buscava anexar terras para o estabelecimento de populações em crescimento.
Nesse sentido, a invasão à Venezuela e o sequestro de seu líder de Estado são o ápice desta lógica, visto a mudança de artifícios de coerção, que primeiro se deram por meio de isolamento diplomático e sanções; e depois evoluíram para uma intervenção militar direta. Desse modo, tornando esse evento um marco do fim de um período estruturado nos discursos liberais de defesa da democracia, direitos humanos e soberania nacional, escancarando, assim, a discrepância estrutural nas relações entre “centro” e “periferia” no sistema internacional.
Portanto, este artigo analisará esse evento argumentando que não se tratou de um caso isolado, mas sim de um costume intervencionista estadunidense, que trata a América Latina como zona de influência para a reprodução de seu poder hegemônico, evidente desde o século XIX por meio da Doutrina Monroe (1823) e evoluindo para a contemporaneidade com a invasão de um país latino-americano pelo governo de Donald Trump.
CONCEITO DE “ESPAÇO VITAL” E O LEGADO INTERVENCIONISTA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
O conceito de espaço vital foi idealizado por Friedrich Ratzel ao final do século XIX. Em sua obra “Geografia Política” (1897), o autor criou as “sete leis do crescimento espacial dos Estados”, defendendo que o país, como organismo vivo, tem a carência inevitável de expandir seu território para garantir sua sobrevivência no sistema internacional. Porém, o território não se limita a esse valor material, ele carrega um sentido duplo, podendo ser entendido seja como instrumento de controle funcional do espaço, seja como uma construção simbólica, ligada ao sentimento de pertencimento, segurança e identidade (HAESBAERT, 2023). Sendo assim, nessa relação entre os Estados Unidos e a América Latina, o espaço vital não é unicamente a área de jurisdição, mas sim um espaço ao qual é imposta, pelo medo, a obediência ao poder hegemônico.
Essa visão tem início em 1823, com a Doutrina Monroe, sob o lema “América para os americanos”. Esta não se limitava somente a ser uma defesa hemisférica em contraponto à recolonização europeia, a doutrina estabeleceu a demarcação antecipada de um espaço vital “in statu nascendi”, ou seja, o local primário desta experiência. Declarando que a parte sul da América era reservada unicamente à exploração e à expansão do poder norte-americano, sendo vedado o acesso a outras potências. Desse modo, percebe-se que a América Latina tem sido a oficina do imperialismo estadunidense por pouco mais de dois séculos, convertendo-se em um lugar onde eles elaboraram táticas de administração extraterritorial, como também adquiriram sua própria concepção de império, que foi reproduzida ao longo dos anos a outras regiões do globo (GRANDIN, 2006).
Na primeira fase desse imperialismo, ocorreu a Guerra Hispano-Americana (1898), que marcou a emergência dos EUA como potência colonial, com a anexação de Porto Rico e das Filipinas, além da área de jurisdição estabelecida na Baía Guantánamo, em Cuba, foram décadas de intervenções diretas na América Central e no Caribe. No livro “War Is a Racket”, escrito pelo ex major-general do Corpo de Fuzileiros Navais estadunidense, Smedley Butler, ele explicita sua experiência no serviço militar deste período, onde ele passou a maior parte do tempo sendo “capanga de luxo” para as grandes empresas, para Wall Street e banqueiros, sendo gerenciador de um esquema de exploração do capitalismo financeiro, durante 33 anos. Vale ressaltar que nessa época, a United Fruit Company, corporação americana, dominou a produção e exportação de frutas tropicais na América Latina, tornando-se a maior exportadora de bananas do mundo e controlando vastas extensões de terras, ferrovias e portos na América Central. Dessa maneira, sendo um espaço vital agrícola e logístico garantido pelos fuzileiros navais (INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 2024).
Durante a Guerra Fria, o espaço vital evoluiu, pois o alvo passou a ser a ideologia. Com a Doutrina de Segurança Nacional (1940), fomentada pelos EUA por meio de acordos militares e de ensino, visando o combate ao avanço do socialismo e a garantia de sua hegemonia, foi estabelecido um “inimigo interno”, onde todo movimento social, sindical, camponês ou intelectual que questionasse os governos apoiadores da interferência estadunidense deveria ser extinto. O golpe de Estado contra Salvador Allende no Chile (1973) evidencia isso. Dessa forma, o Chile durante esse período foi o primeiro laboratório do que se tornaria essa evolução imperialista, pois um país que ousava construir uma alternativa socialista, foi abatido militarmente e economicamente. Junto a isso, a Operação Condor (1975) e o apoio a ditaduras no Brasil (1964), Argentina (1966 e 1976), Uruguai (1973) e Paraguai (1954), integram a concretude do espaço vital e a força de combate a movimentos insurgentes (GRANDIN, 2006). Paralelamente, a captura de líderes estrangeiros em solo soberano não é um evento isolado, pois, em 1989, os EUA invadiram o Panamá e sequestraram o general Manuel Noriega, levando-o para ser julgado em tribunais norte-americanos. Uma demonstração de poder que expôs a ilusão da “igualdade jurídica” entre Estados, a qual somente é mantida enquanto não há conflitos de interesses hegemônicos (AZEVEDO, 2021). O sequestro de Maduro em 2026 exemplifica novamente essa tática de exibir poder sobre o espaço vital, pois o líder venezuelano foi capturado vivo e submetido ao mesmo rito de humilhação pública, comprovando, assim, que a Doutrina Monroe segue vigente no século XXI, por meio do Corolário Trump (OLIVIA, 2025).
Na atualidade, a Venezuela condensa esse arcabouço histórico, pois, há a necessidade de controlar seus recursos estratégicos como o petróleo, colocando o país no centro das disputas geoeconômicas globais (HARVEY, 2004), bem como as sanções econômicas, apoio a golpes, campanhas de desestabilização e por fim a invasão direta, inserindo o país em uma extensa tradição de intervenções, que vai da Guatemala (1954), Chile (1973), Nicarágua (1980) ao Panamá (1989) (ISMAEL et al., 2019).
No entanto, a força material e a coerção não explicam sozinhas a longevidade dessa dominação estadunidense. Para a sustentação desse poder de forma duradoura, foi necessário construir o consenso. O exercício do poder pelo Estado hegemônico se estrutura prioritariamente na construção do consenso, ou seja, na capacidade de universalizar seus interesses privados como se fossem interesses gerais de todo um continente, sendo sustentados por instituições, discursos e práticas as quais naturalizam a ordem vigente (GRAMSCI, 2011). Os EUA, dessa forma, exerceram sua dominação na América Latina por meio desses mecanismos consensuais, como a difusão do Neoliberalismo via Consenso de Washington, o controle financeiro por meio da dívida externa e a atuação de organismos multilaterais (GUIMARÃES, 2002).
Essa estrutura consensual é instável e pode entrar em crise quando desafiada de forma orgânica (GRAMSCI, 2011). O projeto bolivariano, iniciado com a eleição de Hugo Chávez em 1998, foi justamente um abalo nesse consenso, visto que foi um projeto de soberania, integração regional e justiça social, que desafiou as prescrições do Consenso de Washington. A hegemonia começa a fragilizar quando países como a Venezuela passam a questionar estruturalmente essa ordem, especialmente ao rejeitar projetos como o ALCA e ao promover formas alternativas de integração regional como o ALBA (MUHR, 2010).
É nesse momento em que o consenso deixa de ser suficiente para garantir a dominação, e a coerção emerge como mecanismo de controle (GRAMSCI, 2011), a partir da força militar como ocorreu no sequestro de Maduro, essa operação evidencia os limites do poder hegemônico e sua dependência, em última instância, da violência, ao mesmo tempo em que apresenta o espaço vital latino-americano como um território onde a soberania nacional é inferior aos interesses do imperialismo (GRAMSCI, 2011; GRANDIN, 2006; AZEVEDO, 2021).
O COROLÁRIO TRUMP E A DISPUTA POR HEGEMONIA
O aumento da política hemisférica estadunidense com o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, radicalizou a ideia de “América para os americanos”, legitimando as intervenções militares unilaterais na região. Desta forma, o corolário inclui a securitização da presença chinesa, visto que na atualidade é tratada como ameaça à hegemonia regional de Washington, a criminalização dos imigrantes latino-americanos e a caracterização da Venezuela como “crise humanitária” que justifica a recente intervenção (CEPIK, 2019).
A ascensão da China como potência global é um fato que vem marcando o século XXI, visto que a partir das reformas de 1978, a China implantou o “Socialismo com características chinesas” e vem crescendo a taxas que beiram 9,5% ao ano, erradicando a pobreza extrema de 850 milhões de pessoas (QUIVE et al., 2025). Na América Latina, a presença chinesa cresceu consideravelmente, pois atualmente o país vem sendo o primeiro ou o segundo país parceiro comercial da maioria dos países da região (IPEA, 2020), além da Iniciativa do Cinturão Rota (BRI) que inclui 21 países latino-americanos (YU, 2024).
Esta expansão é percebida pelos Estados Unidos como uma afronta direta à sua hegemonia regional, visto que o eixo econômico do Pacífico se configura como o polo dinâmico da acumulação capitalista do século XXI (VADELL, 2011).essa forma, a América Latina é peça-chave nessa reconfiguração. Ao inserir a Venezuela no centro de um embate geopolítico, o país estadunidense envia um recado evidente à China e aos governantes progressistas do território: enquanto seu espaço vital estiver em xeque,será feito uso de tudo o que for possível para reestabelecer sua hegemonia, inclusive através da força bruta.
A Venezuela - naturalmente - ocupa espaço central nesse conflito, visto que detém as maiores reservas de petróleo do mundo (BBC News Brasil, 2026), mantém relações estratégicas com a China e a Rússia e, além disso, tem em Pequim seu maior credor, com empréstimos estimados em US$ 12 bilhões, amortizados com envios de petróleo (RAND, 2026). Desse modo, a intervenção de 2026 deve ser compreendida não apenas como um ato contra o presidente Maduro, mas como uma ação que fortifica a ideia de espaço vital em um momento em que os EUA se sentiram afetados pela possível perda de espaço para outra potência.
CONCLUSÃO
Compreende-se que a invasão à Venezuela em 2026 não representa um evento isolado, pois se trata de um episódio que cristaliza uma longa trajetória intervencionista dos Estados Unidos na América Latina. A perspectiva de “espaço vital”, reinterpretada pela visão contemporânea, se apresenta como conceito-chave fundamental de entendimento sobre como a região permanece inserida em uma lógica de exploração e subordinação, na qual sua soberania é frequentemente relativizada diante dos interesses estratégicos de uma potência hegemônica.
Dessa forma, a combinação entre consenso e coerção, apresentada por Gramsci (2011), é essencial para a manutenção do status quo. Porém, quando soluções alternativas, como o bolivarianismo venezuelano, desafiam esta estrutura, há uma transição do domínio ideológico para o uso da violência. Sendo assim, a intervenção direta mostra que a insistência imperialista, diante de suas limitações no cenário internacional, é afrontada por novas formas de poder.
Nesse caso, com a ascensão da China e suas relações comerciais com a América Latina, os EUA se encontram em instabilidade hegemônica, portanto, o espaço vital retorna como peça-chave para essa reconfiguração da ordem mundial. A Venezuela, nesse sentido, tornou-se um divisor de águas, pois deixa explícita a crise da hegemonia estadunidense, a fragilidade internacional e também é um ponto estratégico que supre as necessidades de Washington, desse modo, fazendo refletir sobre quais serão os próximos desdobramentos para com o sistema internacional e evidenciando a necessidade de uma construção de resistência regional autônoma em meio a ataques contínuos à soberania latino-americana.
REFERÊNCIAS
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