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Bad Bunny e System of a Down: A música como resistência política nas Relações Internacionais

Foto do escritor: nuriascom
nuriascom
4 de set.
7 min de leitura

 

No dia 08 de Fevereiro de 2026, o artista porto-riquenho Bad Bunny se apresentou no Super Bowl- evento que marca a partida final de um campeonato de futebol americano- e colocou em evidência a identidade latino-americana apresentando a música completamente em espanhol, fenômeno que é incomum até mesmo para outros artistas latinos que já faziam sucesso. Essa construção de identidade vai além da representação musical. O cantor demonstrou um impacto político, racial e de uma nova construção social acerca da representação latinoamericana no mundo.


    Essa apresentação ter ocorrido durante o governo do presidente Donald Trump nos EUA, o qual adota uma política de Estado antimigratória, demonstra como gerou impacto globalmente. Segundo Cruz Martínez no portal Jacobina, o cantor através da música “Lo que le pasó a Hawaii” fez uma manifestação contra a xenofobia de Trump e contra todas as políticas anti-imigrantes que colocou em ação e a forma que o Estado norte-americano propaga a identidade latinoamericana, mesmo não sendo parte dessa construção geopolítica, criticando assim o colonialismo estadunidense imposto no mundo.


    Nessa canção, o cantor utiliza pequenos elementos culturais de Porto Rico e do Havaí, territórios pertencentes aos EUA (mas que possuem perspectivas históricas muito diferentes das outras regiões federativas) para retratar o quanto ambos os territórios sofreram com o imperialismo estadunidense, visto que, o Havaí foi alvo de dominação militar marítima das grandes potências europeias e dos Estados Unidos durante boa parte do final do século XIX. Segundo Guilherme Oslo (2025), o Havaí só foi de fato dominado pelos EUA, após a guerra com a Espanha e os vestígios de territórios pertencentes ao governo espanhol que ainda existiam.


    Nesse contexto, vemos a entrada de Porto Rico e a tentativa de dominação dos EUA. Esse destaque histórico pode ser visto na música "El Apagón”, do mesmo cantor, que evidencia o quanto Porto Rico tem sofrido de apagões elétricos devido à privatização do sistema elétrico da ilha, que ocorreu devido à operação de um consórcio elétrico entre EUA e Canadá na região.

     Por conta disso, os elementos culturais presente nas músicas se tornam importantes na luta e resistência identitária para os porto-riquenhos, como destacado pelo próprio título da música, que retrata a situação dos apagões elétricos, como um silenciamento da população porto-riquenha e perda de identidade em um paralelo ao ocorrido no território do Havaí durante o período de colonização norte-americana, transformando as canções em manifestações sociais e em revoltas culturais.


    Essa manifestação reforça o papel da arte na capacidade de influenciar discussões políticas e sociais nas Relações Internacionais. Desse modo, a arte pode ser utilizada como ferramenta de contestação, relacionando os artistas como agentes políticos capazes de disputar narrativas, questionar estruturas de poder e mobilizar debates acerca de identidade, exclusão e representatividade.


     O uso da música (e da arte de forma geral) como forma de resistência e de influência em discussões políticas pode ser visto em outras situações. Podemos citar uma das bandas que usam a música com esse objetivo. Por exemplo, os artistas de rock System of a Down, em que os seus integrantes são descendentes de armênios que se refugiaram nos Estados Unidos, e utilizam da sua discografia para denunciar e pedir o reconhecimento do genocídio armêno realizado pelo Império Otomano em 1915, o que pode ser visto, por exemplo, na faixa “P.L.U.C.K”, em que o genocídio é denunciado, e na faixa “Holy Mountains”, a qual referencia o Monte Ararat, o qual é um dos símbolos nacionais do povo armêno. Assim:

“A militância do System of a Down assume um papel de suma importância no sentido de que não apenas dissemina o assunto e o torna acessível às massas, mas procura preservar a memória do ocorrido, que aos poucos se esvai. Isso porque a Turquia, sucessora do antigo Império Otomano, nega o ocorrido, tendo apoio significativo da comunidade internacional.[...]Apesar da luta de armênios e ativistas para que tais eventos sejam esclarecidos e responsáveis sejam culpados, nações como os Estados Unidos e Inglaterra desconversam sobre o assunto. Na Turquia, a simples menção ao genocídio armênio pode configurar crime.” (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2017)


    Desse modo, a propagação das músicas criadas pelo System of a Down, além da conscientização acerca do genocídio sofrido pela Armênia realizada durante as turnês, é um modo de lutar contra a tentativa de apagamento do acontecimento histórico. Neste caso, o sucesso da banda, a qual é considerada uma das maiores bandas de metal dos anos 2000, foi essencial para que milhares de pessoas em todo o mundo tivessem conhecimento acerca do genocídio, além de buscarem pressionar para que a Turquia e os demais Estados nacionais que não reconhecem o genocídio, o façam.


    Ademais, um caso em que a visibilidade que o System of a Down trás sobre o acontecimento que é interessante de se destacar é em relação ao conhecimento a respeito do genocídio pelos próprios turcos. Considerando que o país pune criminalmente quem discute sobre o assunto, e que a banda não realizou nenhum show no país, o fato de existir uma parcela da população jovem a qual soube do genocídio devido a discografia do System reforça como a visibilidade trazida por meio da música pode ser crucial para certas causas. Inclusive, ao ponto dos membros da banda relatarem já terem recebido cartas e mensagens advindas de fãs turcos admitindo que somente tiveram conhecimento sobre o genocídio por meio da banda.


    Desse modo, seja como ferramenta de resistência latina contra a política imigratória do governo Trump no caso do Bad Bunny, ou como forma de lutar pelo reconhecimento e não-apagamento do genocídio armênio como no caso do System of a Down, a música não pode ser simplesmente lida como um produto incapaz de transmitir alguma mensagem política. Isso significa que as canções podem ser (e são) utilizadas como forma de difundir mensagens que atingem grupos de pessoas as quais não seriam atingidas por outros meios de comunicação.


    Além disso, mesmo que os casos latino e armênio apresentem as próprias particularidades, percebe-se que a música em ambos os casos representa uma forma de resistência política e de identidade. Assim, a música e arte podem ultrapassar barreiras, sendo utilizadas como influência de debates políticos, sociais e culturais.


REFERÊNCIAS



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BBC NEWS BRASIL. “Massacre e perseguição aos armênios: o que aconteceu há mais de 100 anos”. BBC News Brasil, 26 abr. 2021. Disponível em: BBC News Brasil. Acesso em: 22 maio 2026.


BBC NEWS BRASIL. “Porto Rico e o debate sobre colonialismo nos EUA”. BBC News Brasil, 17 out. 2022. Disponível em: BBC News Brasil. Acesso em: 22 maio 2026.


BBC NEWS BRASIL. “Protestos e apagões em Porto Rico”. BBC News Brasil, 7 set. 2022. Disponível em: BBC News Brasil. Acesso em: 22 maio 2026.


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BBC NEWS BRASIL. “System of a Down e a luta pelo reconhecimento do genocídio armênio”. BBC News Brasil. Disponível em: BBC News Brasil. Acesso em: 22 maio 2026.


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