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O Som das Muralhas Caindo: Blues, Jazz, Gospel e Resistência Negra na Política Internacional

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  • há 7 dias
  • 7 min de leitura

Por Kailane Vitória França


Existem dores que não conseguem ser explicadas apenas pela política. Algumas atravessam o corpo, a memória, a alma e o psicológico de toda uma nação. Foi exatamente nesse lugar que nasceram o blues, o jazz e os spirituals negros nos Estados Unidos. Eles não surgiram primeiro como entretenimento, mas como sobrevivência emocional daqueles que estavam enfrentando grandes repressões do governo americano. Antes de serem gêneros musicais reconhecidos mundialmente, eram gritos abafados de pessoas negras que precisavam encontrar alguma forma de continuar vivendo em meio à escravidão, à segregação racial e à violência institucionalizada.

 

Os chamados spirituals surgiram nesse contexto. Eram músicas religiosas cantadas por negros escravizados entre os séculos XVIII e XIX, carregadas de dor, esperança e códigos simbólicos de liberdade. Mais tarde, esses spirituals influenciariam diretamente o surgimento do gospel, do blues e do jazz. Musicalmente, o jazz herdou a improvisação emocional, a intensidade espiritual e o sentimento coletivo dessas canções. Já o blues carregou a melancolia, o sofrimento psicológico e a tentativa de transformar trauma em arte (DAVIS, 1998).

 

Ao partirmos para uma perspectiva psicológica, isso possui enorme relevância. Estudos da neurociência e da psicologia social demonstram que a música atua diretamente na regulação emocional, na memória afetiva e na produção de sensação de pertencimento coletivo (KOELSCH, 2010). Em contextos de trauma social, como escravidão, segregação racial e perseguição política, a música pode funcionar como mecanismo de sobrevivência psíquica. O cérebro humano responde à música liberando neurotransmissores ligados ao alívio emocional, à esperança e à conexão social (LEVITIN, 2006). Isso explica por que comunidades historicamente violentadas frequentemente utilizam música, espiritualidade e arte como formas de resistência.

 

No caso da população negra dos Estados Unidos, o jazz e o blues cristão tornaram-se ferramentas psicológicas de preservação da dignidade humana. Em uma sociedade que constantemente dizia ao povo negro que ele não possuía valor, a música reafirmava a sua humanidade, memória e a identidade coletiva do povo. A igreja negra, além de espaço religioso, tornou-se espaço terapêutico, político, cultural e um espaço onde eles não eram violentados apenas por serem quem eram. O coral, os instrumentos e os cânticos criavam uma sensação coletiva de força diante de uma estrutura social construída para gerar medo e submissão (CONE, 1970).

 

Foi justamente nesse ambiente que figuras como Martin Luther King Jr. encontraram apoio emocional e espiritual para continuar lutando. Um dos momentos mais simbólicos de sua trajetória envolve a música “Joshua Fit the Battle of Jericho”, interpretada por Mahalia Jackson. A canção, baseada na narrativa bíblica da queda das muralhas de Jericó, tornou-se símbolo da luta negra nos Estados Unidos. Quando King ouviu Mahalia cantar aquela música em 1963, ele não enxergava apenas uma história bíblica. Ele via o racismo estrutural norte-americano como uma muralha aparentemente impossível de derrubar. Mas compreendeu que, se continuasse marchando e se cercando das vozes certas, as muralhas iriam cair.

 

Naquele período, os Estados Unidos enfrentavam uma das maiores contradições de sua história. Internacionalmente, o país buscava se apresentar como símbolo da democracia e da liberdade durante a Guerra Fria. Porém, internamente, mantinha leis segregacionistas, violência racial, exclusão política e repressão contra a população negra. Essa contradição gerou impactos globais, já que diversos países africanos e asiáticos que estavam saindo do colonialismo observavam os Estados Unidos criticarem violações de direitos humanos em regimes comunistas enquanto negros americanos eram espancados, assassinados e impedidos de votar dentro do próprio território norte-americano (HOBSBAWM, 1995).

 

Sob a perspectiva do Construtivismo, associada também à análise da política externa norte-americana presente na obra Análise de Política Externa, especialmente no capítulo que tem como tema “Níveis de Análise e o Papel Psicológico”, de Haroldo Ramanzini Júnior e Rogério de Souza Farias (2021), esse cenário demonstra como identidades, discursos e fatores psicológicos influenciam a construção das estruturas políticas internacionais. O racismo nos Estados Unidos não representava apenas comportamentos individuais isolados, mas uma construção histórica legitimada e reproduzida pelo próprio Estado. A ideia de superioridade racial branca foi institucionalizada ao longo do tempo, influenciando tanto a política doméstica quanto a imagem internacional norte-americana durante o contexto da Guerra Fria (WENDT, 1999). Já pela perspectiva da Teoria Crítica, o sistema racial norte-americano pode ser entendido como mecanismo estrutural de poder. O Estado e suas instituições reproduziam desigualdades raciais para manter determinados grupos em posições privilegiadas (COX, 1981). Nesse contexto, o jazz, o blues cristão e o gospel negro surgem não apenas como manifestações culturais, mas como formas de resistência contra essas estruturas de dominação.

 

A música possuía força suficiente para influenciar líderes políticos porque atuava diretamente nas emoções humanas. Muitas vezes, líderes políticos encontram na música não apenas inspiração pessoal, mas também linguagem emocional para compreender o sofrimento do próprio povo. Martin Luther King Jr. é um dos maiores exemplos disso. Sua ligação com Mahalia Jackson — que foi uma voz ativa contra o racismo e a segregação, sendo uma amiga íntima que cantou a música "I Been 'Buked and I Been Scorned" a pedido dele momentos antes do icônico discurso "I have a Dream" — e com a música gospel negra era profunda. Em diversos momentos, King afirmou que a música espiritual negra carregava a alma da resistência afro-americana. Durante reuniões do Movimento dos Direitos Civis, canções religiosas eram utilizadas para fortalecer emocionalmente os militantes diante das ameaças, prisões e violências raciais (FAIRCLOUGH, 1987).

 

Outro exemplo importante foi Nelson Mandela. Durante a luta contra o apartheid na África do Sul, Mandela frequentemente destacava o impacto da música negra e espiritual na resistência política africana. O jazz norte-americano influenciou diretamente artistas e movimentos antiapartheid, criando conexões internacionais entre experiências negras de opressão e resistência (MEREDITH, 1997). Mais recentemente, Barack Obama também demonstrou forte ligação com música afro-americanas, como o jazz e o blues cristão. Obama frequentemente mencionava como a música afro-americana ajudava a contar a verdadeira história dos Estados Unidos. Em eventos oficiais, ressaltava que o jazz representava uma das maiores contribuições culturais da população negra ao mundo e simbolizava criatividade nascida da dor e da luta do povo negro (OBAMA, 2016).

 

Até mesmo líderes religiosos e políticos contemporâneos continuam utilizando música gospel e jazz espiritual como ferramentas emocionais de mobilização coletiva. Isso ocorre porque músicas produzidas em contextos de sofrimento carregam forte capacidade de gerar identificação humana. Psicologicamente, elas funcionam como espaços de validação emocional coletiva, e, na prática, tornam-se instrumentos de resistência simbólica, onde contam a história de um povo e reafirmam a necessidade de não serem julgados por quem são, mas valorizados e incluídos em todos os ambientes formados pela sociedade.

 

O mais impressionante é perceber que o jazz e o blues cristão transformaram sofrimento histórico em um impacto global. O que começou nas igrejas negras e nos campos de algodão ultrapassou fronteiras e passou a influenciar movimentos sociais, debates raciais e produções culturais em diversos países. A música negra norte-americana ajudou a internacionalizar discussões sobre racismo, colonialismo, decolonialismo, desigualdade e direitos humanos. Além disso, muitos dos princípios defendidos nesses movimentos também influenciaram legislações e reconfigurações sociopolíticas em muitos países, frequentemente associados a valores cristãos voltados ao bem-estar dos cidadãos e ao bem coletivo.

 

No Brasil, por exemplo, princípios ligados à igualdade humana e à proteção da dignidade da pessoa foram incorporados na Constituição Federal de 1988, especialmente em direitos fundamentais relacionados à liberdade religiosa, igualdade racial e direitos humanos. A própria criminalização do racismo no país, consolidada pela Lei nº 7.716/1989, dialoga com valores de justiça e igualdade defendidos historicamente por movimentos cristãos e civis de combate à discriminação. Nos Estados Unidos, o Movimento dos Direitos Civis liderado por Martin Luther King Jr. contribuiu diretamente para a criação do Civil Rights Act of 1964 e do Voting Rights Act of 1965, legislações fundamentais contra a segregação racial.

 

Da mesma forma, na África do Sul, princípios de reconciliação, igualdade e dignidade humana influenciaram o processo de superação do apartheid após a liderança de Nelson Mandela. Em muitos desses contextos, valores cristãos associados à justiça, compaixão e defesa dos marginalizados serviram como base ética para movimentos sociais que posteriormente influenciaram mudanças legislativas e políticas públicas em diferentes partes do mundo.

 

Com isso, quando Mahalia Jackson cantava sobre Jericó, não falava apenas sobre uma cidade bíblica. Falava sobre muralhas reais: o racismo, a violência estatal, o medo e o cansaço psicológico de um povo inteiro. E talvez tenha sido justamente essa a maior força da música negra cristã: transformar dor em esperança coletiva sem negar a existência da dor. O jazz, o blues cristão e os spirituals nunca foram apenas música. Foram resistência emocional, terapia coletiva, denúncia política e memória histórica cantada. Enquanto existiam leis tentando silenciar e apagar a história da população negra, existiam vozes lembrando que nenhuma muralha permanece de pé para sempre, e que todas elas, ao serem combatidas, ruíram.


Referências

BRANCH, Taylor. Parting the Waters: America in the King Years 1954–1963. New York: Simon & Schuster, 1988.


CONE, James H. A Black Theology of Liberation. Philadelphia: Lippincott, 1970.


COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium Journal of International Studies, v. 10, n. 2, 1981.


DAVIS, Angela. Blues Legacies and Black Feminism. New York: Vintage Books, 1998.


DU BOIS, W. E. B. The Souls of Black Folk. Chicago: A. C. McClurg & Co., 1903.


DU BOIS, W. E. B. As Almas da Gente Negra. Tradução de Heloísa Toller Gomes. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999.


FAIRCLOUGH, Adam. To Redeem the Soul of America: The Southern Christian Leadership Conference and Martin Luther King Jr. Athens: University of Georgia Press, 1987.


HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


LEVITIN, Daniel. This Is Your Brain on Music: The Science of a Human Obsession. New York: Dutton, 2006.


MEREDITH, Martin. Nelson Mandela: A Biography. New York: Public Affairs, 1997.


OBAMA, Barack. Remarks at International Jazz Day Celebration at the White House, 2016.


RAMANZINI JÚNIOR, Haroldo; FARIAS, Rogério de Souza. “Níveis de Análise e o Papel Psicológico”. In: SALOMÓN, Mônica (org.). Análise de Política Externa. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão.


WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.


KOELSCH, Stefan. Music, perception, emotion and its brain correlates. Progress in Brain Research, v. 156, p. 31–51, 2010.

 
 
 

1 comentário


Jandaíra Garcez
Jandaíra Garcez
há 4 dias

Que texto riquíssimo.

Parabéns para a autora. .

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