FARC: acordando para o fim?
- NURI

- 6 de jun. de 2013
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No último dia 26, foi anunciado o que poderia ser o fim do mais longo conflito de guerrilha na história da América Latina, com duração de 49 anos.Após cerca de seis meses de negociação entre o governo colombiano e líderes das Forças Armadas da Colômbia, FARC, (além de negociadores da Cuba e Noruega e países acompanhantes), as partes envolvidas chegaram a um acordo referente à reforma agrária em território colombiano – que constitui, para alguns, o cerne do conflito. O presente artigo pretende explicar os reais motivos relacionados à existência e persistência da atuação das FARC, as consequências de sua atuação e os possíveis cenários futuros para a sociedade colombiana.

A situação da Colômbia se mostra um tanto diferente, num contexto em que as medidas de fuga da dependência dos países centrais, por parte daqueles da América Latina (Brasil e Argentina, por exemplo) ocorre através de medidas de intervenção estatal e ações de cunho nacionalista. Isso porque existia, em meados do período pós Segunda Guerra Mundial, um governo conservador estabelecido no país que impedia tais ações. Os liberais, a fim de derrubar o governo conservador, unem-se aos pequenos grupos socialistas existentes à época e iniciam, então, uma luta armada, de guerrilha, em 1948. Após algumas conquistas em 16 anos de luta, os liberais perceberam o avanço do socialismo e de seu potencial poder político, em parte como consequência do sucesso da Revolução Cubana, e se sentiram intimidados. Isso fez com que traíssem a aliança e passassem para o lado dos conservadores.
No mesmo ano de 1964, um grupo de 48 camponeses comunistas é perseguido por dezenas de milhares de soldados. Fogem, então, para a selva e criam as FARC. Surgem, então, como uma autointitulada guerrilha revolucionária marxista-leninista de cunho bolivariano. Seu principal objetivo sempre foi a implantação de um regime socialista na Colômbia, através da luta armada e de objetivos específicos, como a acordada reforma agrária. Isso se deve ao momento de difícil situação estrutural política e econômica que a Colômbia atravessava, afetando, majoritariamente, a população campesina. Devido a isto, esse era um momento político-social altamente propício ao surgimento de movimentos revolucionários, e de esquerda, por ir de encontro às políticas liberais, favoráveis a uma elite econômica e política.

Em um contexto de Guerra Fria, percebia-se claramente a susceptibilidade do Estado colombiano a influências externas e mais ainda norte-americanas, que se envolviam claramente em assuntos internos da Colômbia. O surgimento das FARC ocorre em um momento de disputa ideológica – socialismo x capitalismo -, como um movimento que buscava um direcionamento da política interna do Estado para os problemas sociais, como são, ao menos em teoria, todos os movimentos de esquerda.
Os membros das FARC costumeiramente intitulam-se de um Movimento de Libertação Nacional, que visa em suas bases uma forma alternativa de governo, priorizando em seus ideais uma vida mais digna e livre (politica e economicamente) para aqueles que à época mais necessitavam: os campesinos. Estas características fazem com que o Estado – em tese o único detentor da força em seu território, tenha a sua soberania, do ponto de vista interno, ferida.
A sua imagem atualmente, entretanto, é associada à de grupo terrorista, por países ocidentais, como os EUA, Canadá e membros da União Europeia. Essa ligação se explica pelo seu notório financiamento advindo do narcotráfico, contrabando e sequestros.
Existe muita divergência sobre a definição do que vem a ser o terrorismo. Para a compreensão desse artigo, a definição de Antonio Cassese, jurista italiano especializado em direito internacional, se mostra eficiente:
“Qualquer ato violento contra pessoas inocentes com a intenção de forçar um Estado, ou qualquer outro sujeito internacional, para seguir uma linha de conduta que, de outro modo, não seguiria, é um ato de terrorismo.”¹
Dentro dessa ótica, percebe-se que as FARC se encaixam no perfil de grupo terrorista, sendo inclusive relacionado pelo Centro Nacional de Contraterrorismo do governo dos EUA.
Sua atuação em território colombiano – e também com integrantes em outros países da América Latina – já dura 49 anos, tendo como saldo um alto número de conflitos, de sequestros e de mortes (inclusive dos principais líderes do movimento).
Em setembro de 2012, foi anunciado pelo presidente Juan Manuel Santos o início dos diálogos entre o governo e as FARC. Depois de mais de seis meses de negociação, em Havana, ficou acordado entre as partes a implementação da reforma agrária. Apesar de este ser apenas um dentre os seis pontos discutidos, ele exerce papel fundamental na tentativa da busca pela paz e fim dos conflitos. Isso porque, como foi supracitado, o problema gerador das FARC, a priori, e dos conflitos a posteriori, é exatamente o uso das terras de forma desigual.

Durante quase 50 anos, utilizou-se apenas a força e algumas tentativas de diálogo menos sólidas e multilaterais. Porém dessa vez a conversa tem se mostrado como uma medida mais saudável e efetiva na busca pelo fim do conflito. O governo possivelmente cederá de alguma maneira, em alguns aspectos, às exigências das FARC (como a sua participação política legal). Isso se faz necessário do ponto de vista político, pois o mais importante no momento é fazer com que o conflito não mais se estenda.
Existe muita expectativa em torno das consequências desse acordo, já que as FARC atingiriam seu objetivo principal, apesar de sua forma de atuação. Há também a possibilidade do fim de um grupo considerado terrorista, que acarretaria em menores tensões internas e, ainda, o fim de mais um grupo militante de esquerda, demonstrando que este tipo de ação tem cada vez menos espaço, afinal o mundo político já não mais deve ser pensado sob a ótica maniqueísta direita x esquerda.
Citação: 1. http://www.cedin.com.br/revistaeletronica/volume6/arquivos_pdf/sumario/kalki_guevara.pdf




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