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Perspectivas e dificuldades na internacionalização do mercado literário de Salvador

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    nuriascom
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

A internacionalização de mercados culturais, especialmente no setor editorial, constitui um tema relevante no campo das Relações Internacionais, pois envolve dinâmicas de poder, fluxos econômicos e processos de legitimação simbólica no sistema internacional. Em 2024, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) revelou que o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores em quatro anos, segundo a 6ª edição da Retratos da Leitura no Brasil.  A mesma edição também revela uma série histórica: pela primeira vez, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores na população brasileira: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro. Entretanto,  em 2025, o cenário revelado pela CBL aponta um aumento do número de leitores no Brasil em 18%; 2% a mais em relação ao ano anterior, mesmo em um contexto em que editoras regionais e independentes enfrentam um mercado instável. Filtrando para Salvador, cidade com forte produção cultural, o mercado literário enfrenta dificuldades estruturais, onde a Sefaz (Secretaria Municipal da Fazenda) evidencia que mais de 2 mil livrarias fecharam nos últimos 15 anos em Salvador.


Diante desse cenário oscilante do mercado editorial brasileiro, e especialmente soteropolitano, seria a internacionalização uma opção realista para estabilizar essa conjuntura? E como essas questões podem ser analisadas à luz das relações internacionais?


No campo das Relações Internacionais, a teoria da dependência, associada a autores como Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, ajuda a compreender como países periféricos tendem a ocupar posições subordinadas na divisão internacional do trabalho, inclusive no campo cultural. No caso do mercado literário, essa dependência se manifesta na dificuldade de exportação de obras, na baixa presença de traduções e na limitada capacidade de inserção em redes internacionais de circulação de livros. A literatura produzida em Salvador, embora rica em diversidade temática, especialmente no que diz respeito às heranças afro-brasileiras e literatura infanto-juvenil, encontra barreiras linguísticas, econômicas e institucionais para alcançar leitores estrangeiros. 


Dessa forma, as relações de poder no sistema internacional influenciam diretamente quais narrativas circulam globalmente. Nesse sentido, as contribuições das teorias críticas gramscianas e neogramscianas nos conceitos de hegemonia, forças sociais e estruturas históricas são bem-vindas à análise. Destarte, segundo Jesus (1989) orienta definições básicas sobre o conceito do filósofo marxista-leninista: “Em Gramsci portanto, o conceito de hegemonia é apresentado em toda sua plenitude, isto é, como uma ação que atinge não apenas a estrutura econômica e a organização política da sociedade, mas também age sobre o modo de pensar, de conhecer e sobre as orientações ideológicas e culturais (JESUS, 1989, p.42 apud  SPESSOTO; LIMA, 2016)”. Portanto, a questão da hegemonia preocupa-se em como um estado ou grupo dominante pode exercer seu poder sobre outro, através da coerção (não necessariamente violenta) e do consenso. Esse recorte encaixa-se no Brasil e em Salvador, onde a literatura estrangeira é acolhida através do consenso cultural, moral, político e linguístico. Essa perspectiva é observada na predominância do consumo de obras especialmente estadunidenses e na valorização de determinados estilos e temáticas alinhados aos interesses do mercado editorial dominante do norte global. É nesse sentido que as redes sociais, aliadas à globalização, servem como um dos mais importantes fatores que tornam consensual e planejada a recepção do público, assim como gera coerção estrutural no mercado editorial soteropolitano.


O prisma das plataformas online se tornou o principal meio do consumo dos usuários, trazendo alterações para a forma que o e-commerce ocorre no mercado literário. Dessa forma, o efeito pós-pandemia ampliou os estudos qualitativos na interação entre usuário e plataforma, gerando dados e precisão que quantificam determinados interesses. É justamente nesse ponto, fazendo o recorte temporal pós-pandemia, que o Booktok enquanto fenômeno da rede social TikTok ganha sua importância. De acordo com Merga (2021,p.3), o Booktok é  “Uma comunidade no TikTok, onde leitores e autores podem interagir sobre livros e leitura, com o conteúdo de vídeo disponível neste espaço concentrado nesses interesses compartilhados.” Portanto, o espaço digital transforma as plataformas em uma arquitetura programável projetada para organizar as interações entre os usuários, enquanto elas oferecem serviços personalizados, como aponta Van Dijck, Poell e De Waal (2018) em “The Platform Society”. É justamente através da hegemonia, sociolinguística e de novas dinâmicas sociais e econômicas da mercantilização online no campo literário onde a aplicação de Robert Cox e sua noção de estruturas históricas ganha sua relevância. 


É nesse sentido que é possível pensar em uma perspectiva de internacionalização de Salvador para encarar o conjunto das “três categorias de forças”, que são recíprocas e expressas em capacidades materiais, ideias e instituições:


No mais abstrato, a noção de um quadro de ação ou estrutura histórica é uma imagem de uma configuração particular de forças. Essa configuração não determina ações de nenhuma forma direta e mecânica, mas impõe pressões e constrangimentos. Indivíduos e grupos podem mover-se de acordo com as pressões ou resistir e se opor a elas, mas não podem ignorá-las. Na medida em que resistem com sucesso a uma estrutura histórica predominante, eles baseiam suas ações em uma configuração de forças alternativa e emergente, uma estrutura rival. (COX, 1981, p.21)


Robert Cox também afirma que “A questão de como as linhas de força funcionam é sempre uma questão histórica a ser respondida por um estudo do caso particular” (COX, 1981, p.21-22). Nesse sentido, pesquisar sobre as “três categorias de força” em um estudo de caso voltado ao mercado literário de Salvador pode trazer novas contribuições para o embasamento do texto, assim como responder às perguntas iniciais do ensaio. Para tal, será necessário descrever a tríplice de força, assim como trazer materialmente o que cada tópico representa no mercado editorial. O autor do presente texto trará os conceitos de forma concisa. 


As capacidades materiais são os recursos econômicos, técnicos e estruturais que permitem produzir, divulgar, traduzir e exportar livros. Exemplos como editoras locais, gráficas, livrarias, edição, tradução e distribuição de Salvador estão em desvantagem estrutural em comparação às grandes editoras presentes no Sul e Sudeste, como a Companhia das Letras ou Intrínseca, revelando também um recorte de desigualdade econômica e geográfica, mas que não será aprofundado no presente ensaio. 


As ideias são os valores, narrativas e visões de mundo que dão sentido à produção literária e influenciam o que é considerado “relevante”, “vendável” ou “universal”. Objetivamente, o já citado Book Tok  torna-se uma projeção do conceito de consenso e coerção, dominando o imaginário de consumo da literatura moderna – construindo e destruindo algoritmos rápidos em um ciclo incessante de produtos frágeis e listas de livros fluidas, voláteis, onde nada é feito para durar.


As instituições são os organismos, regras e redes que organizam o funcionamento do mercado literário e ajudam ou dificultam sua internacionalização. Nesse enfoque, um fator relevante é a ausência de políticas públicas consistentes voltadas à internacionalização do livro brasileiro, especialmente em nível subnacional. Embora existam iniciativas federais e participação em feiras internacionais, como em Frankfurt e Guadalajara, há pouca articulação específica para mercados locais como o de Salvador. A falta de incentivos à tradução, à formação de agentes literários e à presença digital internacional limita a capacidade de inserção global dos autores baianos. Aprofundando o ponto de vista institucional, a fragilidade das editoras independentes locais também constitui um entrave. Muitas dessas editoras operam com recursos limitados, o que dificulta investimentos em marketing internacional, participação em eventos globais e estabelecimento de parcerias estratégicas. Em um mercado global competitivo, onde visibilidade e networking são fundamentais, essa limitação estrutural reduz significativamente as chances de internacionalização. Ademais, a globalização digital, embora ofereça novas oportunidades, não elimina completamente as desigualdades. Plataformas como Amazon e outras ferramentas de autopublicação ampliam o alcance potencial, mas também intensificam a concorrência e mantém algoritmos que favorecem conteúdos já consolidados. Assim, autores de Salvador continuam enfrentando dificuldades para se destacar em meio a uma oferta massiva de obras.


Assim sendo, autores de Salvador podem enfrentar pressões para adaptar suas produções a padrões externos e não seguir a estrutura histórica predominante, o que pode levar à descaracterização de elementos culturais locais ou à marginalização de histórias tipicamente brasileiras, como o caso de personagens protagonistas com o nome “Summer” em contextos soteropolitanos. Como mencionado, Salvador enfrenta obstáculos estruturais para se inserir em circuitos globais. Nesse sentido, sob a perspectiva da economia política internacional, o mercado editorial global é altamente concentrado em países do Norte Global, como Estados Unidos, Reino Unido e França. Esses países dominam os fluxos de capital e distribuição de livros e estabelecem padrões de legitimidade literária. Isso se reflete na centralidade de agentes literários, feiras internacionais e grandes editoras, conhecidas como “big five”: Penguin Random House, HarperCollins, Simon & Schuster, Macmillan  e Hachette Livre. Elas funcionam como gatekeepers do que é considerado relevante no mercado global. Salvador, inserida em um país periférico e semiperiférico, conforme a tradição da teoria da dependência, enfrenta limitações estruturais para competir nesse cenário. Nesse sentido, a visão de Pascale Casanova, acadêmica francesa, crítica literária, socióloga e ensaísta, pode contribuir para a análise da desconstrução da problemática no campo sociolinguístico, onde em sua última obra, La Langue Mondiale (A língua mundial), identifica um dos aspectos determinantes da dominação como a linguagem. 


Portanto, a dificuldade da internacionalização do mercado literário de Salvador reflete estruturas mais amplas do sistema internacional, marcadas por desigualdades econômicas, assimetrias de poder e hegemonia cultural. Enfrentá-las requer políticas coordenadas, como a ampliação das parcerias de editoras soteropolitanas da APEX via CBL, fortalecendo uma inserção estratégica nos fluxos culturais globais, de modo a ampliar a visibilidade e o reconhecimento da produção literária soteropolitana no cenário internacional. Para tal, é imprescindível entender e subverter as estruturas sobre as quais aprofundam a lente da teoria da dependência e as teorias críticas, em sua peculiaridade de emancipação humana. A luta pela reconstrução de um novo modo de pensar deve servir às classes subalternas em enfrentamento às estruturas históricas da classe dominante. É necessário adensar a construção de uma subjetividade política que as impulsionam para a práxis da organização de uma nova forma de pensar o conteúdo produzido tanto no Brasil quanto no mercado editorial de Salvador.



REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS


A ÚLTIMA obra de Pascale Casanova: uma teoria inovadora da literatura e da tradução. Periodicos.unb.br. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/belasinfieis/article/view/57302/43274. Acesso em: 24 abr. 2026.


AMÉLIA, Ana; MARTINS, Lage; MARTELETO, Regina. Cultura, ideologia e hegemonia: Antonio Gramsci e o campo de estudos da informação / Culture, ideology and hegemony: Antonio Gramsci and the information studies fiel

d. Acesso em: 30 abr. 2026.


CLUBE DE LITERATURA CLÁSSICA. Tudo sobre FEIRAS DE LIVROS no Brasil e no mundo. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hO4ypxk4NSE. Acesso em: 22 abr. 2026.


COX, R. Forças sociais, Estados e ordens mundiais: além da teoria de Relações Internacionais. Millennium: Journal of International Studies, v. 20, n. 2, p. 10–37, 1981. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/52053. Acesso em: 23 mai. 2026.


FÜHR, N.; RAUBER, L.; BARTH, M. A influência do TikTok no mercado editorial: uma análise do BookTok / The influence of TikTok on the publishing industry: an analysis of BookTok. v. 13, p. 139–165, jan. 2023. Disponível em: https://saberhumano.emnuvens.com.br/sh/article/view/635. Acesso em: 25 mai. 2026.


MAIS da metade dos brasileiros não lê livros, aponta pesquisa - CBL - Câmara Brasileira do Livro. Cbl.org.br. Disponível em: https://www.cbl.org.br/2024/11/mais-da-metade-dos-brasileiros-nao-le-livros-aponta-pesquisa/. Acesso em: 23 abr. 2026.


MAIS de 2 mil livrarias fecharam as portas em Salvador, mas resistência vem de redes regionais - Metro 1. Disponível em: https://www.metro1.com.br/noticias/jornal-da-metropole/170671. Acesso em: 24 abr. 2026.


RÁDIO SENADO. Pesquisa indica aumento do número de leitores no Brasil. Senado.leg.br. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2026/04/01/pesquisa-indica-aumento-do-numero-de-leitores-no-brasil. Acesso em: 23 abr. 2026.


SPESSOTO, M.; LIMA, S. Gramsci: conceitos básicos. Perspectivas em Diálogo: Revista de Educação e Sociedade, v. 3, n. 6, p. 104–120, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/persdia/article/view/1767. Acesso em: 25 mai. 2026.

 
 
 

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