A Black Music como ferramenta de resistência social e política
- nuriascom
- 28 de mai.
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Nascida na África, a Black Music se consolidou como um espaço de troca de conhecimento, memória e resistência dos povos africanos diante da sociedade colonial que legitimava a exploração, a violência e a desumanização. Essa expressão musical foi levada para outros continentes durante o período da escravidão, contexto em que as músicas preservavam a ligação com suas raízes e manifestavam sofrimento diário. Essas canções ficaram conhecidas como Work Songs (músicas de trabalho), dando origem a diversos estilos musicais. Na década de 1940, a revista Billboard batizou tais gêneros de Black Music (BACKX, 2018). As músicas e danças de cada região africana serviam como meio de comunicação, expressão e transmissão de ensinamentos entre gerações. Na África Ocidental, destacava-se o uso de tambores como o
djembê e o talking drum. Já no sul africano, o canto coral e as danças tradicionais como “danças zulus” simbolizavam força e identidade cultural; Jána África Oriental, as canções folclóricas eram usadas para celebrações e cerimônias.
Essa diversidade rítmica e cultural foi fundamental para a formação da Black Music, visto que seu significado cultural e sons distintos marcaram sua diferença em relação à música europeia, criando sua própria identidade.
Dessa maneira, a Black Music é composta por diversos gêneros. Entre eles está o Blues, caracterizado por suas letras melancólicas e considerado a raiz de quase todos os outros. Trata-se de uma forma de música folclórica secular criada por afro-americanos no início do século XX, originalmente no Sul dos Estados Unidos. O Gospel, surgindo dos Spirituals Negros – as canções de fé e esperança dos escravizados nos EUA – que mesclavam hinos cristãos com ritmos e o sistema de chamado e resposta de suas raízes africanas. O Jazz, trazido de Nova Orleans pelos afro-americanos, combina influências do blues, ragtime e música europeia. Rhythm and Blues (R&B) é comumente entendido como a música urbana sofisticada que vem se desenvolvendo desde a década de 1930. O Funk veio do Soul, tendo como um de seus principais expoentes James Brown. O Hip Hop é muito utilizado para relatar vivências da comunidade periférica, especialmente sobre a população negra desses locais.
Apesar de ter se consolidado nos Estados Unidos, é imprescindível enfatizar a Black music no Brasil, onde artistas locais elaboraram as influências estadunidenses, produzindo o Soul – que nasceu do Gospel e R&B – e a Bossa-Nova.
Os primeiros passos da Black Music Brasileira têm início na bossa negra de Elza Soares - figura emblemática no samba-enredo que utilizou a arte para denunciar o racismo e a misoginia - passam pelo Samba Jazz de Jorge Ben, Simonal e Salvador Trio, e chegam a uma sonoridade explicitamente soul e funk, com Simonal e Dom Salvador. Paralelamente a esse cenário musical, vale destacar também o surgimento do Bossa-nova. Oriundo da mistura de gêneros do black music, o gênero consolidou-se no final da década de 50 no Rio de Janeiro.
Nesse contexto, o cantor, compositor e pianista brasileiro Johnny Alf desempenhou um papel fundamental sendo um dos pioneiros do estilo musical. Em 1953, ele lançou o disco “Rapaz de Bem”, que foi considerado precursor do Bossa Nova. Entretanto, apesar de sua genialidade, sua figura nunca foi reconhecida de forma proporcional ao seu esforço, pois Alf era um homem negro, periférico e gay, características consideradas fora do padrão da época.
Sob tal perspectiva, Alaíde Costa, cantora favorita de Johnny Alf, afirmou o contínuo racismo dentro do Bossa-Nova e a forma como foi encoberta, a ponto de nenhum dos artistas negros perceberem o que estavam enfrentando: “Quando o movimento começou, eu já era profissional. Era convidada para os encontros porque podia ajudar o movimento de alguma maneira” Afirma em uma entrevista concedida à Vogue Brasil em 2022. Alaíde Costa, cantora e compositora brasileira, é considerada uma das pioneiras da Bossa-Nova antes mesmo do gênero obter esse nome. Com mais de 60 anos de carreira, destacou-se por sua trajetória como artista e sua luta diante do racismo, especialmente na emancipação da mulher negra no cenário artístico. Contudo, apesar de toda a sua jornada, ela também enfrentou os mesmos empecilhos que Alf.
No livro “Chega de Saudade”(1990), Ruy Castro ressalta que, mesmo após conquistar destaque no cenário musical, “...Alaíde era perseguida pelo estigma que iria acompanhá-la por toda sua carreira: um mito entre os músicos e respeitada por todos os cantores, mas não tinha chances nas gravadoras” (CASTRO, 1990). A partir desse apagamento, surgiu o termo Bossa-Negra. Derivado do gênero Bossa-Nova, tornou-se uma releitura histórica e afirmação não somente da presença da população afro na Música Popular Brasileira, mas também de que as verdadeiras raízes desse gênero musical são predominantemente negras. O termo se popularizou na década de 60 após o icônico álbum de Elza Soares, “Elza Soares A Bossa Negra” e foi marcado pelo uso da “malandragem lírica” para ocupar espaços com a finalidade de devolver o prestígio negro e para criticar o sistema sem citar nomes, permitindo que a música passasse despercebida, especialmente após o golpe de 64.
Sob essa ótica, a música negra brasileira não se trata apenas de produções musicais feitas por pessoas pretas. Trata-se, sobretudo, de uma afirmação enquanto linguagem política que dialoga com a experiência afro no país. Esses artistas não estão preocupados em atender às demandas do mercado, mas, sim, em priorizar a contestação de valores hegemônicos da branquitude, buscando abrir espaços para a liberdade de expressão. Essas artistas não apenas ocupam o espaço musical, mas o transformam em território de disputa simbólica, produzindo músicas que não se encaixam passivamente no “popular”, mas criam um campo de resistência estética e política (FERREIRA;SILVA, 2025). Quando a produção está voltada para suprir as demandas de mercado, muitas vezes guiadas pela lógica da branquitude, essa produção acaba
esvaziando as questões históricas e políticas presentes nos gêneros da música negra. Nesse sentido, ela não se define por quem o fez, mas pela intenção de reforçar o seu existir, a identidade, a denúncia de desigualdades e a exposição de conflitos no debate racial.
Ademais, a identidade Black Music é indissociável da estética do corpo, ditando como se fala, como se veste e se move diante da sociedade. O visual do Black Power, as danças características de cada gênero e o posicionamento político permanecem sendo um dos pilares
essenciais para o senso de pertencimento na música negra. Em um sistema que queria apagá-los, o simples fato de estarem ocupando lugares de destaque, vestidos com elegância e propagando sua cultura, já era um símbolo político, dado que quebrava o estereótipo de subalternidade da população negra.
Perante esse cenário, destaca-se Quincy Jones, músico, produtor, arranjador e compositor, cuja carreira atravessou diversos gêneros da Black Music. Reconhecido como um dos nomes influentes da indústria musical, Jones se destacou ao produzir álbuns de grande sucesso de Michael Jackson como Off The Wall (1979), Thriller (1982) e We Are The World (1985). No documentário (Quincy, 2018), Jones declara que não pôde, em sua trajetória, controlar onde morava e os brancos cometiam racismo contra ele quando o viam sozinho na rua. Portanto, a música era a coisa na qual ele poderia controlar e se sentir em liberdade artística e pessoal. É a partir dessa premissa que podemos compreender a arte, sobretudo pela população negra, como um instrumento de liberdade simbólica, mesmo diante de sistemas opressivos. Quincy viu a música como um espaço onde ele não é o “outro”, mas o centro, criando um senso de pertencimento. Com isso, a criação artística permite que sentimentos e críticas sejam expressos de maneira segura, ainda que, em muitos momentos, de maneira codificada.
Desde os quilombos, locais de refúgio e resistência da população negra escravizada durante o período colonial, até gêneros musicais contemporâneos como o samba, o rap e o funk, a cultura afro-brasileira é marcada por contínuos processos de adaptação e resistência frente às tentativas de apagamento cultural. Essas comunidades eram reconhecidas não apenas pela oposição aos senhores, como também no alívio que proporcionaram aos quilombolas, pois representavam um lugar seguro para a preservação de práticas culturais e religiosas trazidas da África.
Conforme aponta Jurema Werneck, em seu artigo Mulheres negras, racismo e participação na música popular brasileira (2013, p. 5) “desde o Brasil colônia, a música foi vivida e produzida pela população negra não apenas como objeto de deleite, mas principalmente como veículo discursivo, como algo que fala, para além dos prazeres de ritmo e melodia”. Em meio às exigências dos colonizadores, a música serviu como amenizador da dor da escravidão, do afastamento de sua terra, de suas crenças e familiares. Nessa lógica, o povo negro deu origem a formas próprias de expressão cultural e linguística, como o chamado Quimbundo.
Misturando a língua portuguesa e línguas africanas, com a finalidade de tornar sua comunicação ininteligível para os senhores e feitores de engenho, traziam ritmo, saudade, comunicação rápida e planos estratégicos de rota de fuga, e estavam presentes também na alimentação, em brincadeiras, cortejos, ritos fúnebres e outras ocasiões. Essa herança cultural, quase extinta e pouco pesquisada, foi registrada pela primeira vez em 1982 (FERREIRA; SILVA, 2021).
Sob esse viés, é possível relacionar a Black Music e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O principal a ser mencionado é o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições eficazes) que propõe a construção de sociedades mais justas, pacíficas e inclusivas, fortalecendo instituições transparentes, combatendo a corrupção e garantindo direitos fundamentais como acesso à informação, justiça e participação democrática. Assim, o ODS se faz necessário em face da falta de reconhecimento por parte da indústria com relação aos artistas negros. Cantores e compositores brancos ganhavam notoriedade com uma facilidade exorbitante em relação aos negros, ainda que suas obras não fossem tão ricas quanto. Ocorridos como tal acontecem desde a década de 1950, onde era comum que grandes gravadoras fizessem covers de músicas de artistas negros por artistas brancos, priorizando seus lançamentos e investimentos na divulgação. O cantor Pat Boone é o maior exemplo, regravando músicas como a de Fats Domino ("Ain't That a Shame") ganhando mais tempo nas rádios e vendendo muito mais cópias que as versões originais, que eram consideradas mais "agressivas" ou "autênticas" pelo público da época. Apesar de Dominó expressar gratidão por tal feito, esse ocorrido revela as dinâmicas da indústria perante a música negra.
Logo, é nítido que a indústria musical era exclusiva e utilizada da arte negra apenas quando era lucrativo para eles, não para prestigiá-los enquanto pessoas e profissionais.
Já o ODS 10 (redução de desigualdades) busca reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles, defendendo que todas as pessoas tenham oportunidades reais de participar da vida social, política e econômica, independentemente de sua origem, classe, gênero ou cor. Nessas circunstâncias, a música negra busca contribuir com as propostas do ODS 10, dado que promove consciência política e social, funcionando como um meio de educação popular. As músicas negras cujas letras abordam violência, racismo e desigualdade funcionam como instrumentos de denúncia e reivindicação de direitos, enfatizando a busca por paz e justiça social. Elas constroem pontes de diálogo por meio do entretenimento e despertam indignação e empatia por esses indivíduos.
A partir de um legado histórico de resistência, a música negra continua se reinventando com o surgimento de novos gêneros diante de contextos contemporâneos em que o racismo ainda se mostra como um problema estrutural. Nesse cenário, a Black Music torna-se um fenômeno de impacto político e mercadológico na indústria musical brasileira. Embora nacionalistas a critiquem como uma “importação”, seu crescimento em território nacional é frequentemente associado a Tim Maia na década de 1970 (MORAIS, 2020, p. 3) evidencia que sua presença representa um processo de ressignificação cultural e artística.
Por fim, a Black Music não deve ser entendida apenas como entretenimento, mas sim como um instrumento de sobrevivência. Desde o princípio, essa expressão musical serviu como espaço de liberdade simbólica, onde a preservação da memória e a exposição da desumanização se transformaram em ritmo. Ao enfrentar as estruturas de apagamento e apropriação cultural, a música negra se tornou uma reafirmação da identidade desse povo que, historicamente, utilizou a arte para ressignificar a imagem do corpo negro na sociedade, ocupando espaços de destaque. Portanto, a música negra é um instrumento político e educacional que mantém viva a luta de resistência contra o racismo.
FERREIRA, Caroline Rodrigues; SILVA, Rosane Azevedo Neves da. Cultura, identidade e resistência: a música preta como expressão de afirmação. Ñanduty, Dourados, Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/nanduty/article/view/19390/11208.
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MORAIS, Bruno Vinícius Leite de. Os primórdios da black music brasileira e da linguagem política do orgulho negro nos anos 1960. Mosaico, v. 12, n. 19, 2020. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7744963..
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