"E aí? Vamos trabalhar?" - Segundo dia de AMUN no PIF
A quarta sessão do Pacific Islands Forum (PIF) inicia-se com ainda mais ausências em comparação com o dia anterior.
Apesar do clima desanimador, a delegação das Ilhas Marshall inicia pedindo desculpas por não ter participado da elaboração da agenda na sessão anterior e faz um apelo para que o comitê abandone os debates vazios e concentre seus esforços na construção de soluções concretas. As primeiras propostas enfrentaram resistência imediata. A ideia de criar um órgão de fiscalização para monitorar futuros ataques perdeu força quando as delegações reconheceram que não havia consenso sobre quem fiscalizaria esse mecanismo. Em seu lugar, ganhou espaço a discussão sobre um tribunal coletivo acompanhado de um fundo financeiro destinado a viabilizar punições sem comprometer a autonomia dos Estados-membros.
Ainda assim, o avanço foi lento. Diante do silêncio de parte do comitê, Vanuatu rompeu com uma cobrança direta: “E aí? Vamos trabalhar?” que pouco mudou a dinâmica da sala.
Tonga tentou introduzir uma alternativa ao sugerir um órgão capaz de reunir países com poder bélico semelhante para negociar em condições mais equilibradas com as grandes potências, mas a proposta foi rapidamente descartada. Vanuatu argumentou que recorrer a apoio externo não era pertinente à situação que debatiam no PIF, enquanto as delegações mais passivas continuavam praticamente ausentes das negociações.
Após o fim do Debate Não Moderado, as Ilhas Marshall celebraram a conclusão da agenda em seu discurso, mas transformaram o momento em uma crítica pública às delegações que pouco participaram da elaboração do documento e à persistente ausência francesa. Ao dirigir a atenção para o recém-chegado Reino Unido, sugeriram que a nação ainda poderia desempenhar um papel relevante na busca por uma solução. A resposta britânica mudou completamente o tom da sessão. O Reino Unido acusou as nações oceânicas de recorrerem à Europa sempre que enfrentavam dificuldades, chegando a classificá-las como incompetentes. A declaração provocou uma reação imediata. As Ilhas Marshall resgataram o histórico colonial britânico e acusaram o Reino Unido de abandonar seu próprio território insular para conduzir experimentos em outras ilhas. Vanuatu reforçou o ataque ao afirmar que a Oceania vinha sendo tratada como uma periferia disponível para interesses externos e que aqueles responsáveis pelos testes deveriam ser punidos.
Tonga elevou ainda mais o confronto ao afirmar que chamar o Reino Unido de explorador era “uma palavra muito leve”, relacionando o colonialismo histórico ao apoio ao neocolonialismo. A delegação britânica respondeu negando qualquer responsabilidade comprovada pelos acontecimentos, classificando as acusações contra si e contra à França como uma tentativa de vilanização baseada em alegações infundadas que afetam diretamente a soberania europeia.As Ilhas Marshall contra-atacaram apresentando evidências dos impactos sobre a fauna e a flora e declararam frustração com a postura britânica, admitindo que esperavam encontrar nele um aliado. A Austrália voltou a assumir o papel de moderadora: concordou com as críticas dirigidas às potências europeias, mas insistiu que o comitê precisava abandonar a discussão sobre o passado colonial e concentrar-se na construção de uma resolução viável.
Foi justamente durante a apresentação formal da agenda que o debate voltou a encontrar algum terreno comum. Vanuatu destacou a atuação dos agentes franceses, reafirmou o princípio da autodeterminação e apresentou a proposta da união insular como um dos pilares do documento. Após a votação, a agenda foi aprovada, oferecendo ao comitê um raro momento de consenso em meio às sucessivas disputas diplomáticas. As divergências, contudo, reapareceram imediatamente na redação do novo documento. Fiji insistiu que as soluções precisavam priorizar a sobrevivência do ecossistema e enfrentar diretamente a questão nuclear. A Austrália fez uma ressalva importante ao lembrar que determinados testes haviam sido autorizados em seu contexto histórico, embora muitos dos riscos ambientais jamais tivessem sido plenamente discutidos.
Durante a discussão, voltou à tona a justificativa francesa apresentada em sessões anteriores: por considerar a Polinésia Francesa parte do seu próprio território, a delegação francesa sustentava que cabia à França decidir sobre a realização dos testes na região. Vanuatu rebateu essa lógica com a frase “A radiação não segue linhas de território”, lembrando que as consequências dos testes nucleares extrapolavam qualquer fronteira administrativa e atingiam os demais territórios oceânicos. Enquanto as Ilhas Marshall defendiam recorrer à Corte Internacional de Justiça (CIJ), Vanuatu argumentava que esse caminho não era adequado para os objetivos que buscavam no comitê. Assim, Marshall cobrou às delegações, que discordassem da utilização do CIJ, alternativas que fossem mais compatíveis. O Reino Unido voltou a defender que os testes haviam seguido medidas rigorosas de segurança e que em troca os países receberiam tecnologia de ponta, ao que Marshall respondeu que toda aquela tecnologia havia sido usada justamente contra os povos da região.
O último Debate Não Moderado da sessão concentrou-se menos no conteúdo da resolução e mais em uma questão política delicada: O Reino Unido deveria integrar o novo documento como parceiro da solução? Vanuatu perguntou diretamente se o Reino Unido assumiria alguma responsabilidade pelos testes. A resposta foi negativa. Com o encerramento do segundo dia, o Pacific Islands Forum deixou uma agenda aprovada, mas ainda distante de um consenso sobre a sua implementação no novo documento. A França permanece ausente; o Reino Unido tornou-se o novo foco das tensões; e o comitê terminou o dia diante da mesma pergunta que pairava sobre a sala desde o início das negociações: seria possível transformar a indignação coletiva em uma resolução capaz de enfrentar as potências sem dividir as próprias ilhas do Pacífico?
Analistas: Alinne Coentro e Mariana Santos
Secretária de Comunicação: Maria Rita Almeida



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