NECROPOLÍTICA E INVISIBILIDADE SOCIAL EM “TRÊS GRAÇAS”
Lara Agra | Diz Aí, Ascom!

No segundo capítulo da novela “Três Graças”, que foi ao ar em outubro de 2025, ocorre um ponto de virada muito emblemático com o objetivo de apresentar um dos enredos principais da obra. Na cena, o personagem Santiago Ferette (Murilo Benício) chega em uma grande festa prestada em sua homenagem devido às ações beneficentes de sua fundação farmacêutica. Durante a cobertura de imprensa, porém, um homem extremamente vulnerável surge em meio à multidão, interrompendo o evento ao acusar Ferette publicamente de ser um assassino. O personagem em questão é Misael (Belo), um morador da comunidade fictícia da Chacrinha que perdeu a esposa para uma doença após os remédios da Fundação Ferette não fazerem o efeito prometido.
A acusação de Misael, no entanto, não parte de um caso isolado. A Chacrinha recebe os remédios da Fundação de forma gratuita, sendo, naquele universo, a representação do único programa universal que fornece assistência farmacêutica à população periférica. No entanto, percebe-se que o número de pessoas que buscam tratamento através dos remédios da Fundação mostra uma piora gradativa em seus respectivos quadros de saúde, levando ao óbito de vários moradores da região que fizeram o uso dos medicamentos. A grande trama da novela é impulsionada pela zona nefasta que se institui na Chacrinha, que então passa a ser assombrada com o seguinte questionamento: por que há tantas pessoas da comunidade morrendo se estão todos tomando os remédios da Fundação como foi instruído a eles?
Para entender como essa instituição operacionaliza dentro da trama, é necessário tecer uma comparação entre o ensaio de Achille Mbembe sobre necropolítica e o enredo-chave de “Três Graças”.
Quando Michael Foucault (1926-1984) define biopoder como o domínio da vida sobre o qual o poder estabeleceu o controle, o filósofo francês abre precedentes para a visualização de um estado soberano capaz de exercer controle sobre a mortalidade a partir de uma gestão com foco na proteção e cultivo à vida (FOUCAULT, 1975-1976). Em “Três Graças”, vemos que a empresa de Ferette recebe montantes garantidos do Estado para produção de remédios que deveriam ser distribuídos na Chacrinha gratuitamente. A ação é vista como algo nobre, elevando o status da empresa e do próprio Ferette, que logo passa a ser reconhecido como um grande benfeitor. No entanto,logo descobrimos que o dinheiro recebido por ele não é direcionado ao projeto. A proposta de usar a fundação privada como meio de cuidar da saúde pública acabou se revelando como um grande esquema de lavagem de dinheiro, com o único propósito de enriquecer Ferette e sua sócia, Arminda (Grazi Massafera). Como resultado, o número de mortes da Chacrinha recebe um impulsionamento curioso, que acaba levando ao questionamento da verdadeira procedência
À medida que Ferette e Arminda crescem em riqueza e influência, é revelado que o terror sanitário da Chacrinha se dá devido à falsificação dos remédios, que são fabricados pela Fundação Ferette em uma fábrica de farinha de baixíssimo custo. Nessa perspectiva, a noção de soberania concentra-se nesses dois indivíduos que condenam todo um povo a uma relação de dominação e exclusão a partir do abandono aos limites da morte. Mbembe então eleva a teoria de Foucault para um outro patamar, expressando que o caráter da biopolítica não cobre a tessitura contemporânea dessa exerção de poder. Assim, surge a necropolítica – onde a expressão de soberania se define pela capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer, estabelecendo então quem tem valor e quem é "descartável" (MBEMBE, 2011).
A Chacrinha então se erige dentro da novela como um personagem próprio, onde o espaço cravado pela exclusão social, cultural e de classe torna-se um corpo de pertencimento ontológico e resistência. Logo, a tomada de conhecimento do processo necropolítico torna-se essencial para uma mobilização retaliatória, tensionada pela sede de justiça dos personagens que residem na região.
Segundo o professor Eduardo Mei, o Brasil é o produto cotidiano de uma guerra de conquista que ocorre desde o período colonial. A necropolítica, portanto, é uma remanescência viva da conquista colonial e da escravidão, como um cadáver vivo constitutivo do nosso cotidiano (MEI, 2020). Sendo assim, a guerra contemporânea desenhada em “Três Graças” encontra-se não em grandes conflitos bélicos ou nas ferramentas truculentas da época da colonização, mas na execução mecanizada e silenciosa do povo da Chacrinha.
Pode-se concluir que a necropolítica reside na operação de massacres silenciosos, desigualdades infraestruturais e criação de zonas de exclusão. É possível ver como a tática de Ferette para roubar o dinheiro convém à execução puramente técnica e ágil de corpos periféricos, sendo o recurso diligente para a garantia do seu caráter soberano. A Chacrinha, no entanto, resiste a essa tentativa de apagamento, mostrando que, mesmo com tal ímpeto da elite em exterminá-los, ela não fica amuada diante da violência que as pessoas estão sofrendo e resolve agir.
Com um plano de roubar o dinheiro de Ferrete para comprar remédios verdadeiros para a comunidade, a protagonista Gerluce (Sophie Charlotte) carrega a indignação desse processo e o converte em um ato de justiça social, mostrando que a força da sua comunidade é um ente indelével que jamais será sacrificado ao trabalho da morte imposto pela elite e sua sede por poder.
Referências:
SILVA, Aguinaldo; SILVA, Virgílio; DASSILVA, Zé. Três Graças. Rio de Janeiro: TV Globo, 2025. Telenovela. Disponível em: Globoplay.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Palestra proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação (PENESB-RJ), em 5 nov. 2003.
FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade: Curso no Collège de France, 1975-1976. Paris: Seuil, 1997, pp. 213-234.
SANTOS, João Vitor. A necropolítica brasileira e sua origem na guerra colonizadora: entrevista especial com Eduardo Mei. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 18 jun. 2020. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/600046-a-necropolitica-brasileira-e-sua-origem-na-guerra-colonizadora-entrevista-especial-com-eduardo-mei. Acesso em: 25 out. 2026.
NUNES, Everardo Duarte. Da invisibilidade social: breve reflexão. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 25, n. 10, p. 3700, 2020. DOI: https://doi.org/10.1590/1413-812320202510.20922020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/YTmjtwwpHYRvpSCBg3r4N9M/?lang=pt. Acesso em: 25 out. 2026.
COSTA, Fernando Braga da. Garis: um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública. 2002. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/001298332. Acesso em: 25 out. 2026.



Comentários