top of page

Looksmaxxing: da rejeição à dominação estética

  • Foto do escritor: nuriascom
    nuriascom
  • 11 de mai.
  • 4 min de leitura

Por Maria Júlia Souza


Durante anos, a identidade incel era associada à ideia de um sujeito socialmente desajeitado e esteticamente desagradável. O próprio termo “incel”, derivado de “involuntary celibate”, surgiu na década de 1990, criado por uma mulher para descrever experiências de solidão e dificuldade de estabelecer relações sexuais e afetivas como um indivíduo que não se adequa aos padrões difundidos de atratividade (Gonçalves, 2025). No entanto, com o tempo esse termo começou a ser utilizado e ressignificado por comunidades online majoritariamente masculinas, integrando a esse termo um caráter misógino e masculinista, sugerindo a marginalização desses indivíduos diante da injustiça estrutural estabelecida pela superficialidade do desejo feminino. Nos últimos seis anos, entretanto, esses indivíduos vêm popularizando um termo que supostamente seria a resposta para seu celibato voluntário: o looksmaxxing (Farell, 2024).

Em suma, o looksmaxxing se define pelo constante aperfeiçoamento estético de homens considerados indesejáveis por sua aparência, objetivando relações sexuais e, em menor medida, afetiva, com o gênero oposto. Farell (2024) informa que o neologismo nasceu de fóruns digitais estadunidenses e popularizou-se através da rede social TikTok, ao ponto de se integrar ao vocabulário online da geração Z, ambos em tom sério e jocoso. Esse aperfeiçoamento range de práticas simples como a musculação, dieta e mudança de estilo (softmaxxing) para injeção de esteroides, cirurgia plásticas e danificação voluntária de ossos (hardmaxxing).

Essa transformação, à primeira vista, poderia sugerir uma ruptura dos pensamentos misóginos e masculinistas que caracterizam as comunidades incel, uma vez que agora recebem atenção feminina. No entanto, o que se observa é que a mudança na aparência não altera sua forma de perceber as relações sociais. Pelo contrário, a validação obtida por meio do aperfeiçoamento estético reforça uma visão em que o valor das pessoas é determinado pela aparência, inserindo homens e mulheres em uma lógica de “mercado sexual”.

Nesse contexto, as mulheres continuam sendo objetificadas, avaliadas conforme padrões estéticos que esses próprios homens adotam. Ao mesmo tempo, ocorre uma inversão de posição, em que ao se tornarem desejáveis dentro dessa lógica, esses homens se colocam como objetos de desejo e assumem o papel de quem seleciona. Assim, o acesso a eles também passa a ser condicionado ao enquadramento nesses mesmos padrões. Isso evidencia que, para esses indivíduos, não se trata apenas de desejo sexual, mas, sobretudo, de uma disputa por poder dentro dessas relações.

Essa dinâmica de poder se torna mais evidente em conteúdos online produzidos por esses homens, onde plataformas de mídias sociais são comumente utilizadas para a disseminação de vídeos tendenciosos. Um exemplo, são vídeos nos quais esses homens questionam as preferências das mulheres em uma parceiro, como altura e massa muscular. Em seguida, invertem a lógica e passam a impor seus próprios critérios às mulheres, às avaliando com base em padrões estéticos definidos por eles, como peso e proporções corporais, chegando até mesmo a constrangê-las a se pesarem em sua frente. Quando essas mulheres não se encaixam nesses critérios, são ridicularizadas. O mais contraditório é que esses homens as classificam e constrangem com base exclusivamente em sua opinião, universalizando o desejo masculino. Dessa maneira, observa-se não apenas a permanência da objetificação do corpo feminino, mas sua reconfiguração, na medida em que esses sujeitos, anteriormente posicionados como excluídos, passam a reivindicar para si o papel de avaliadores legítimos do desejo (Gonçalves, 2025; Clegg, 2026).

Nesse sentido, como argumenta Bell Hooks (2004), o patriarcado impõe padrões restritivos aos homens, especialmente no que diz respeito à performance de uma masculinidade ideal, gerando vigilância corporal e constante sensação de inadequação. No entanto, esse mesmo sistema continua a beneficiá-los, legitimando sua posição como avaliadores dos corpos femininos. Assim, ainda que o looksmaxxing submeta esses homens a pressão estética, ele também os reposicionam como agentes de validação, permitindo que reproduzam a lógica que antes os excluía. Ademais, essa regulação não ocorre de maneira igualitária, as mulheres seguem sendo mais intensamente cobradas e avaliadas a partir de sua aparência, evidenciando que, mesmo quando homens passam a experienciar essas pressões, elas permanecem mais profundas e estruturais para os corpos femininos.

Gonçalves (2025) levanta a importância do looksmaxxing não ser compreendido somente como uma prática estética, mas como um vetor influente para as dinâmicas de gênero contemporâneas. Segundo a autora, ao serem compartilhados nas mídias digitais, esse tipo de conteúdo se dissemina e atrai outros adeptos a esse pensamento. Sendo assim, esse processo não ocorre de forma isolada, mas se articula com discursos mais amplos difundidos por comunidades redpill e por setores da extrema direita, que compartilham a defesa de uma ordem social baseada na dominância masculina e no controle dos corpos femininos. Logo, uma ideia nascida em fóruns na deep web estadunidense se torna uma nova roupagem do patriarcado e continua a recrutar adolescentes e jovens adultos ao redor do mundo.

Em última instância, o looksmaxxing não é uma superação da lógica incel, mas sua representação estética.. Ao mover o foco da frustração para o aperfeiçoamento, esses indivíduos não rompem com a estrutura que os marginalizava, mas aprendem a operar dentro dela. O resultado não é superação de seus ideais misóginos, mas sua intensificação. Assim, o que se vende como autodesenvolvimento se revela como a reprodução de um sistema que reduz corpos à capital. Sendo assim, muito mais do que uma tendência passageira, o looksmaxxing reflete a capacidade do patriarcado de se reconfigurar, moldando sua estética, mas preservando suas relações de poder. No fim, o resultado não é ruptura, mas adesão. São corpos “otimizados” sustentando, com ainda mais rigor, a mesma estrutura que os produziu como insuficientes.

Referências

Clegg, R. O que é “looksmaxxing” e por que tendência preocupa especialistas. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx248y1p5k7o⁠. Acesso em: 9 abr. 2026.

Farell, R. Inside looksmaxxing: the extreme cosmetic social media trend. Disponível em: https://www.bbc.com/culture/article/20240326-inside-looksmaxxing-the-extreme-cosmetic-social-media-trend⁠. Acesso em: 8 abr. 2026.

Gonçalves, J. Você sabe o que significa o termo “incel”? Politize!, 2024. Disponível em: https://www.politize.com.br/incel/⁠. Acesso em: 10 abr. 2026.

Hooks, Bell. The will to change: men, masculinity, and love. New York: Washington Square Press, 2004.Disponível em: . Acesso em: 28 abr. 2026.


 
 
 

Comentários


TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO NURI ©‎
bottom of page