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O PAPEL DAS NOVELAS NA FORMAÇÃO CULTURAL BRASILEIRA

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há 2 dias
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 Maria Luiza dos Reis Garcia Costa Bitencourt | Diz Aí, Ascom!



Até o final dos anos 60, a teledramaturgia brasileira era interligada a um modelo clássico e artificial de folhetins radiofónicos. Essas histórias privilegiam o modelo de capa e espada, com cenários exóticos, castelos e narrativas descoladas da realidade brasileira. Entretanto, esse modelo era considerado ultrapassado e passou a ser substituído a partir de 1968, com a estreia da novela Beto Rockfeller pela TV Tupi e a ascensão de autores como Janete Clair e Dias Gomes pela Globo.     


Responsável por introduzir uma nova forma de enredo para as novelas, Beto Rockfeller se utilizava de metamorfoses sociais e comportamentais da época e integrava o modelo de produções ficcionais daquele período a uma nova estética de representação – experiências essas que fizeram muito sucesso com o público. As mudanças apresentadas pela TV Tupi em 1968 deram início ao chamado “realismo cênico”, modo de representação que se tornou um dos alicerces para o “Padrão Globo” a partir de 1969.


O “Padrão Globo” nada mais é do que uma série de padronizações adotada pela empresa televisiva para garantir a qualidade e rentabilidade das produções feitas pela empresa. Entre as diversas medidas tomadas estão contratos exclusivos com autores e atores da cena teatral, a inovação tecnológica precoce e a segmentação dos horários e glamourização de cenários. O início desse modelo é marcado pela contratação de Janete Clair e Dias Gomes em 1969, seguida da estreia de novelas como Véu de Noiva (1969) e Irmão Coragem (1970). Esse modelo rendeu resultados acima da média para a TV Globo, ajudando a estabelecer esse modelo de novela dentro e fora do Brasil e diferenciando as produções brasileiras das demais produções da América Latina. 


É a partir dessa virada estética que as novelas passam a ser um dos principais produtos simbólicos na indústria cultural nacional, agindo como uma plataforma unificada que conecta diferentes classes sociais e regiões em torno de um enredo e imaginação popular. Assim, as novelas se tornaram a principal plataforma de acesso à informação cultural, viabilizando a construção do pensamento crítico e permitindo que os indivíduos percebam a possibilidade de uma mudança real no coletivo. 


Exemplos disso são estudos que apontam que quando um personagem da novela foge dos padrões heteronormativos a audiência passa a simpatizar e reconhecer a diversidade nas famílias e escolas.  Além disso, pesquisas históricas também apontam que novelas como Roque Santeiro (1985) e Anos Rebeldes (1992) funcionaram como sintoma da abertura democrática e impulsionam protestos cívicos da juventude da época. Existem diversos outros exemplos similares a esses que demonstram que, para além de entreter, as novelas também ocupam um espaço importante no letramento histórico, aprendizagem, democratização a obras e diversos outros tópicos. 


Entretanto, as telenovelas ainda atuam através da indústria cultural voltada ao lucro, frequentemente propagando exclusões simbólicas, incentivando o consumo exacerbado e reproduzindo hierarquias de raça, gênero e classe. Essas exclusões acontecem porque as narrativas estão sempre voltadas às classes dominantes do eixo Rio-São Paulo, fazendo com que personagens negros, asiáticos ou fora dos padrões sejam representados de forma subalterna, rasa ou periférica. Exemplos disso são as representações de mulheres pobres associadas com vulgaridade, como acontece em obras como as personagens “Lurdinha” e “Morena” em "Salve Jorge" e “Bibi Perigosa” em "A força do querer". O mesmo acontece com personagens LGBTQIA + que muitas vezes são representados com trejeitos exagerados e espalhafatosos, com as personalidades pouco ou não desenvolvidas, como é no caso do “Crô” e o “Visky”, ambos da telenovela Fina Estampa (2012). Esse tipo de representação faz com que as populações rurais, afro-brasileiras e LGBT não se sintam pertencentes ao Brasil demonstrado pelas novelas, além de estereotipar essas comunidades. 


Em resumo, as novelas são um vetor muito importante para a popularização de temas ainda muito discutidos no Brasil, como democracia, política, aceitação de diferenças, acesso à cultura, entre outros. Mas, apesar do forte potencial que essas obras apresentam, o modelo de negócio em que se baseia a indústria cultural, profundamente sustentado na produção de lucro, ainda é muito presente dentro das histórias, gerando o sentimento de exclusão e atrasando certos debates.



Referências

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