Trap e Funk como ferramentas de resistência: biopolítica, necropolítica e disputa de narrativas nas periferias brasileiras
- nuriascom
- 27 de mai.
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As manifestações musicais oriundas das periferias urbanas brasileiras, como o funk, o rap e o trap, constituem importantes dispositivos de resistência social e política. Longe de serem meros produtos culturais, essas expressões surgem em territórios marcados pelo abandono estrutural, pela violência policial, pelo racismo e pela precarização da vida. Nesse contexto, elas se tornam instrumentos de disputas de narrativas e afirmar existências que o Estado e a sociedade historicamente tentam silenciar.
Michel Foucault (1979) define a biopolítica como o conjunto de técnicas modernas de poder voltadas à gestão da vida. Tal poder atua sobre populações por meio de dispositivos de vigilância, disciplina, e controle dos corpos. Nas periferias brasileiras, esses mecanismos se manifestam na presença policial ostensiva, na precarização dos serviços públicos e, na produção de estigmas sobre seus habitantes.
Achille Mbembe (2011), ao propor a noção de necropolítica, amplia a discussão ao argumentar que o poder contemporâneo não se limita a gerir a vida, mas a produzir e administrar a morte. Na lógica necropolítica, determinados corpos — majoritariamente negros, pobres e racializados — são transformados em “corpos matáveis” e expostos a condições de existência em que morrer deixa de ser exceção e passa a ser regra.
Essas teorias evidenciam que a marginalização da periferia é resultado de uma estrutura que regula e hierarquiza vidas. Nesse cenário, a música produzida nesses territórios surge como uma forma de enfrentamento: ela rompe barreiras discursivas, reafirma subjetividades e denuncia a violência cotidiana. Por surgirem de territórios estigmatizados, o funk e o trap são frequentemente tratados como expressões ameaçadoras. A sociedade hegemônica tende a enquadrá-los como “apologia ao crime”, ignorando que muitas das narrativas presentes nesses gêneros são descrições das condições violentas às quais seus autores estão submetidos.
O que se interpreta como glamourização da criminalidade costuma ser na verdade, retrato fiel da vida atravessada pela necropolítica. Como discursos produzidos por sujeitos que vivenciam tais estruturas, essas músicas funcionam como forma de registro, memória e denúncia. Elas expõem a realidade que o Estado frequentemente tenta ocultar (ARAÚJO; MUNIZ, 2023). Assim, esses gêneros assumem caráter político ao desafiar o monopólio institucional sobre o discurso público. Como práticas culturais, rompem com o silenciamento imposto às periferias e revelam a potência criativa de populações marginalizadas. A obra AmarElo (2019), de Emicida, constitui exemplar expressão da resistência periférica. O verso: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” (EMICIDA, 2019) atua como declaração política de sobrevivência. Em um contexto no qual jovens negros e periféricos são expostos à morte constante, a frase manifesta uma recusa à lógica necropolítica. O artista ressignifica a experiência da dor como força coletiva, propondo uma estética da vida que se opõe ao apagamento histórico dessas populações. Emicida transforma o rap em espaço de cura, memória e autoafirmação, posicionando a existência periférica como no centro de sua narrativa.
O rapper BK’, no álbum Castelos & Ruínas (2016), sintetiza outro elemento fundamental da resistência periférica: a relação indissociável entre identidade e território. Ao afirmar: “Tô de rolé pela minha rua de olho no bairro. Tô de rolé pelo meu mundo de olho na vida” (BK’, 2016) o artista articula pertencimento e expansão. O verso demonstra que sua visão de mundo é moldada pela experiência periférica. Mesmo ao circular por outros espaços, o artista preserva sua referência territorial, reafirmando a legitimidade do saber produzido na periferia. Essa dupla consciência representa uma resistência à tentativa de desterritorialização simbólica, exercida pela biopolítica, que frequentemente busca neutralizar identidades periféricas para incorporá-las ao discurso dominante.
A criminalização do funk e do trap não é um fenômeno isolado, mas parte de um mecanismo maior de controle social. Ao rotular essas expressões como perigosas, a sociedade legitima práticas repressivas que vão desde a censura cultural, até a violência policial em bailes e espaços públicos (DIAS FILHO, 2021). Tais ações reforçam o apagamento histórico das narrativas periféricas e funcionam como dispositivos necropolíticos.: m Marcam a cultura da periferia como indesejável, justificando sua supressão. Ao silenciar a arte, silencia-se também a memória e o discurso sobre as condições de vida nesses territórios.
Dessa forma, a criminalização não invalida o caráter de resistência da música periférica — ao contrário, evidencia o quanto ela ameaça estruturas de poder que dependem do silêncio dessas populações. Os gêneros musicais produzidos na periferia, como o trap, o funk e o rap, constituem formas de resistência que confrontam dispositivos de controle e exclusão característicos de sociedades atravessadas pela biopolítica e necropolítica (ARAÚJO; MUNIZ, 2023). Ao transformarem a dor cotidiana em narrativa, essas músicas desestabilizam discursos hegemônicos, reivindicam cidadania, e afirmam a vida onde o Estado frequentemente produz morte. As obras de Emicida e BK’ demonstram que a música periférica é uma prática política que articula memória, identidade e território. Suas produções revelam que a periferia não apenas sobrevive: ela cria, pensa e resiste. Frente à tentativa de criminalização, e apagamento, esses gêneros reafirmam a potência transformadora das vozes marginalizadas.
Assim, compreender o trap e o funk como “apologia ao crime” é ignorar sua dimensão crítica e seu papel como instrumentos de denúncia e afirmação. Em vez disso, é preciso reconhecer neles expressões legítimas de vida, resistência e luta contra as lógicas que hierarquizam e descartam corpos.
Referências:
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